Contos

Um divórcio benéfico

Não sei quem saiu melhor desse divórcio:

Você que finalmente passará um tempo sozinho trabalhando nos seus distúrbios de agressividade ou ela que teve forças e se afastou de você.

Mas no meio disso tudo, eu só consigo pensar nela.


Eu imagino que enquanto ela arruma as próprias malas depois de ter assinado os papéis do divórcio, deve passar por sua cabeça todos os 28 anos de violência doméstica, deve se lembrar de quando as amigas a chamavam para sair durante a juventude e ela recusava pois você era muito ciumento e ela tinha medo de deixá-lo zangado ao vê-la exercer a própria liberdade. Enquanto ela faz essas malas, você pode ter certeza que ela sabe o quanto você tirou dela, o quanto sugou da sua juventude e o quanto sugou dela como mulher. Você tirou dela a possibilidade de se tornar uma mãe, tirou dela a dignidade, a liberdade, o respeito e hoje ela olha para trás e vê apenas anos jogados ao vento. Você a traía, agredia, limitava e impedia, ela sabe que aqueles anos foram um desperdício, com certeza não um desperdício total,  pois apesar de tudo ela evoluiu e aprendeu a ser forte e a se posicionar perante as suas ameaças, mas foi um desperdício emocional, porque agora, na casa dos quarenta e seis anos, ela vai ter que se reerguer e correr atrás da recuperação emocional de um relacionamento abusivo que durou tempo demais.

Ela fecha o zíper da mala e sai da casa que era o seu cárcere desejando que sua juventude volte para poder sonhar com um grande amor que possa, desta vez, ser saudável, que possa recomeçar e reconstruir seus sonhos do passado, porque agora depois de 28 anos de casamento, ela caiu na lábia da sociedade que a fez acreditar que só podemos nos apaixonar na casa dos 18, 20 ou 30 anos e que casamento é só para “gente jovem” e bem resolvida, enquanto divórcios dizem respeito apenas para gente “velha” que deu azar no amor.

O quanto ela perdeu divórcio nenhum restitui, mas agora que está livre, cabe a ela voar. Para onde? Pode ser para algum lugar no mundo, ou para os braços de um outro alguém, um amor não correspondido do passado, talvez, quem sabe. Já pensou? Pois sabe, eu ouvi dizer que ela se apaixonou durante esse casamento de 28 anos por alguém que teria sido um homem melhor para ela, mas ela não teve forças na época para o divórcio e reprimiu um sentimento que poderia ter mudado o rumo de sua vida. Ela tem 46 anos, mas não é tarde para amar de novo. É mais livre e desimpedida do que nunca.

– Rejane Leopoldino

 

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2 comentários em “Um divórcio benéfico

  1. “I believe that everything happens for a reason. People change so that you can learn to let go, things go wrong so that you can appreciate them when they’re right, you believe lies so you eventually learn to trust no one but yourself, and sometimes good things fall apart so better things can fall together”… Marilyn Monroe

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