Celibato

Sexta-feira à noite, Nicolas entra no bar com temática ironicamente religiosa em São Paulo, e caminha até sua amiga de faculdade que está sentada no balcão de frente para uma cruz vermelha neon na parede, uma das poucas luzes daquele lugar, com seu costumeiro sobretudo azul escuro, bebendo o que parecia ser uma Margarita. Nicolas se senta na banqueta ao lado da sua amiga. -Eu só ouço falar de você aqui neste bar, Clarice. Ela sorri pousando a bebida no balcão. Então já sabe onde me encontrar. responde. Queria falar com você sobre a Andressa, ela é sua amiga há anos e estamos passando por um momento difícil no relacionamento… – Clarice ouve o amigo enquanto vira o que sobrou da Margarita – e queria saber se você teria algum conselho? Pergunta olhando para a cruz vermelha na parede, felizmente não prestou atenção no rolar de olhos de Clarice. Nicolas, eu não sei se a minha versão alcoolizada é a melhor para dar conselhos, mas se quiser uma opinião sincera, acho que ela vai terminar com você em breve. Ele volta os olhos para sua amiga com uma expressão chocada enquanto a vê se dobrar sob o balcão e cochichar algo no ouvido do barman que responde à ela com um sorriso e uma piscadela. Por que diz isso? E o que foi isso entre você e o barman? – pergunta com uma voz urgente e incrédula. Clarice olha para seu amigo de cima a baixo. A barba por fazer, as olheiras, o cheiro forte de cigarro barato em suas roupas… Nicolas era um rapaz interessantíssimo anos atrás, inteligente, matemático promissor, mas no último ano se entregou aos jogos de poker, está viciado em apostas, Andressa várias vezes vinha ao mesmo bar em que os dois estavam sentados agora, desabafar com Clarice sobre o dinheiro que Nicolas estava perdendo nos jogos. – Digamos que seja um palpite, meu caro amigo. Responde Clarice após fazer uma breve análise. O barman volta com um drink grande feito com gin, morangos, hortelã e algumas outras coisas e entrega à Clarice com um sorriso piscando para ela novamente. Ah, sim, e sobre o barman… – Clarice se inclina para Nicolas, gesticulando para que ele se aproxime e sussurra em seu ouvido: Ele está me dando doses duplas de tequila e gin nas minhas bebidas, tenho que manter o charme. Revela com um sorriso pomposo. Eles se afastam. Essa bebida aqui, por exemplo, -aponta para a taça- pedi em sua homenagem, é um drink da casa feito com gin, ela se chama “Celibato”. Nicolas não entende a referência, e por que é em minha homenagem? pergunta confuso. Oh… você não sabe o que “Celibato” significa? Nicolas balança a cabeça negativamente semi-serrando os olhos. Clarice ri. Amanhã você saberá. Diz por fim, dando um gole.

Na noite seguinte, Nicolas voltou ao bar, não precisou marcar encontro, sabia que Clarice estaria lá. Ele sentou-se ao lado dela no balcão, novamente de frente para a cruz vermelha, sem falar nada, com aquela cara de choro, olhos e nariz vermelhos. Clarice tomou o último gole de seu Apple Martini, olhou para o amigo derrotado ao seu lado que fitava o chão do bar, Clarice riu baixo, se espreguiçou jogando os braços atrás da cabeça, e deu um grito para o barman: Aí, Jack! O barman que secava os copos de costas para os dois amigos se virou com um sorriso para Clarice. -Me vê dois Celibatos.

– Rejane Leopoldino

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