Ainda sobre Marie de Gounay e o livro Arqueofeminismo, de Maxime Rovere.

Vejam como a mente de Marie de Gounay (e eu não me canso de falar desta mulher) escritora e filósofa francesa era perspicaz:

Ela escreveu uma carta à rainha regente Ana de Áustria, filha de Felipe III e Margarida de Áustria, esposa de Luís XIII (depois da morte do rei, Ana assumiu o trono francês como regente no período de 1643 a 1651, até quando Luis XIV atinge a maioridade e torna-se rei em sucessão à sua mãe), a incentivando a apoiar a igualdade entre homens e mulheres e servir como exemplo para seu sexo em uma época dominada pelo patriarcado onde as mulheres não tinham suas vozes ouvidas a menos que estivessem sendo apoiadas por outros homens. Uma carta à rainha, ela não poderia ser chamada de menos do que ousada.

Não satisfeita, Marie de Gounay também escreveu o livro “Igualdade entre homens e mulheres” que serve como um tapa na cara de todos aqueles que acreditam na supremacia masculina. Ela não mediu esforços para embasar o seu pensamento igualitário, citando como fontes infinitas mentes antigas de nome ilustre, tais quais Platão e Sócrates que atribuem as mulheres os mesmos direitos, faculdades e funções ou ainda Plutarco, que em seu segundo livro de sua obra “Moralia” defende que a virtude do homem e da mulher são iguais. E ela não para por ai, Erasmo, teólogo e humanista, Poliziano, humanista, dramaturgo e poeta e Agrippa, pensador alemão famoso por argumentar em seu escrito “sobre a nobreza e pré excelência do sexo feminino”, que as mulheres poderiam ser consideradas superiores ao sexo masculino, ela citou todos estes nomes e vários outros, todos se opondo a aqueles que desprezam o sexo feminino, e quando já havia falado sobre as mulheres no campo intelectual, passou a falar da participação feminina na nobreza, criticando a Lei Sálica, que foi um código elaborado no início do século IV e que ainda estava em vigência na alta Idade Média. No século XIV, um artigo desse código foi separado do seu contexto original e empregado por juristas da dinastia real capetiana na França, para justificar a proibição das mulheres a ascenderem ao trono francês.

Após falar sobre a desigualdade sexual na nobreza, e nos campos intelectuais, Marie de Gounay vai de encontro ao debate com a igreja, refutando a ideia que se faz da Escritura de que o homem é dono da mulher, pois estes dois sexos vieram ao mundo como um só e suas únicas diferenças dizem respeito aos órgãos sexuais. Ou quando ela diz que: “Jesus Cristo é chamado filho do homem, embora ele só o seja da mulher” e ainda sobre a religião, ela diz: “Se os homens se vangloriam que Jesus Cristo tenha nascido com seu sexo, respondemos que tinha de ser assim, por um necessário decoro. Se ele tivesse sido do sexo feminino, não poderia ter se misturado às multidões a qualquer hora do dia e da noite a fim de socorrer, converter e salvar o gênero humano […] E ainda que alguém seja tão obtuso a ponto de imaginar que Deus é masculino ou feminino, embora seu nome pareça ter uma ressonância com o masculino, não há a necessidade de escolha de um sexo em detrimento de outro para honrar a encarnação de seu filho, esta pessoa mostra claramente que é tão mal filósofo, como teólogo”.

Deixo expressa aqui minha devoção a esta mulher.

– Rejane Leopoldino

 

 

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É por esse motivo que não escrevo mais poemas desde 2016.

Um amigo me perguntou após ler o meu blogue de cabo a rabo, o por que de desde o fim de 2016 eu não ter mais escrito poemas. Bom, aqui escrevo a minha perturbadora resposta mascarada de desabafo.


Pode ser uma novidade para vocês, mas o blogue existe desde dezembro de 2014. vejamos em 2014 eu tinha… 16 anos, estou com 21 agora, é faz tempo. Eu comecei escrevendo poesias, a única categoria do site era: “poemas”, não haviam outras categorias. Eu estaria mentindo se dissesse que as poesias eram boas, mas elas também não eram ruins, eram poesias adolescentes dedicadas aos meus namoradinhos. Vá… eu tinha 16 anos.

Eu continuei por mais dois anos escrevendo minhas poesias no blogue, elas foram melhorando e eu estava orgulhosa do meu progresso, já não eram sobre os namoradinhos, eram muito mais maduras. Até que em 2016, poucos dias depois de eu completar 18 anos, conheci uma jovem moça, que felizmente não me lembro do nome, metida a intelectual, com um ar de superioridade e a falsa maturidade dos seus 22 anos. A conheci dentro de um shopping na livraria da Saraiva onde eu estava sentada em uma das mesas escrevendo alguns versos, esta moça procurava um lugar para sentar pois todas as outras mesas estavam cheias, ela perguntou se poderia se sentar comigo, eu disse que sim e começamos a conversar, ela viu que eu estava escrevendo poesias, perguntou se eu gostaria de ler as poesias dela, eu disse que sim e ela tirou um caderno da sua bolsa e as mostrou para mim. Os poemas de fato eram ótimos, muito bem escritos, lembro de me sentir o patinho feio dos poetas quando ela pediu que eu mostrasse a ela os meus versos.

Quando ela leu o meu caderninho de poemas, não fez comentários sobre o conteúdo do que eu havia escrito, apenas arqueou uma sobrancelha e perguntou quais os tipos de “formas poéticas” que eu mais gostava de utilizar e eu perguntei com muita ingenuidade: “como assim?”. Ela riu da minha cara. Achou ridículo (e ela realmente utilizou esta palavra) eu não saber o que era um poema Dístico, Décima, ou que Sonetos são compostos por exatamente 14 versos. Eu me senti realmente humilhada com a risada dela. Eu só tinha 18 anos, era uma garota sensível que não estava preparada para sofrer deboche e ridicularização de uma pessoa desconhecida e metida a intelectual. Ela disse que os meus poemas seriam melhores se eu escrevesse como ela e começou a reescrever sem nenhum pedido meu ou autorização os meus poemas em uma folha avulsa de seu caderno, corrigindo a forma poética se esnobando para mim, eu me senti humilhada pela crítica negativa aos meus poemas juvenis, tão humilhada que eu não tinha forças na voz para argumentar, só queria sair dali e ir chorar em uma cabine do banheiro feminino.  Ficar sentada naquela mesa enquanto eu a assistia debochar dos meus poemas e “corrigi-los” sem nenhuma autorização, foi uma tortura. Primeiro porque eu permaneci em silêncio, chocada demais com o atrevimento da atitude dela, segundo porque o meu silêncio deu a certeza que ela precisava de que podia me esnobar o quanto quisesse que eu não seria capaz de contra atacar.

Depois de alguns minutos sob aquela tortura, eu tive um lampejo de amor próprio, peguei minhas coisas, me levantei da mesa sem olhar para a cara daquela moça e fui chorar no banheiro. Pelo menos eu saí da mesa com classe e elegância.

Eu estava trancada na cabine do banheiro chorando horrores e com muita raiva, joguei o caderno onde escrevia meus poemas na lixeira e em cima do caderno rasguei vários pedaços de papel higiênico até acabar com o rolo de papel da cabine e lotar a lixeira. Foi uma cena deprimente.

Passei um ano inteiro sem ler poemas, voltei a ler no início de 2018 mas nunca mais consegui escrever nem um versinho que seja. E olha que já tentei diversas vezes. Até hoje me sinto acuada e constrangida em sequer tentar escrever um poema, me parece uma escrita inalcançável, me sinto indigna, envergonhada, ridicularizada como se eles fossem reservados apenas aos seres humanos que sabem aos 18 anos o que é um poema “dístico”, ah, por favor… Não demorou muito para eu sentir vergonha de todos os poemas que eu já havia publicado no blogue, a humilhação que aquele ser humano me submeteu realmente me impactou negativamente e me fez acreditar que eles eram poemas horríveis, capazes de gerar asco, então, a primeira coisa que fiz depois de jogar meu caderno fora, foi ir para casa e deletar quase todos os meus poemas (salvo um ou dois), não queria que ninguém mais visse o que eu havia escrito. Hoje, os meus arquivos de publicações daquele ano no WordPress estão assim:

Capturar

“Desconhecido ou excluído” – frase repetida mais de 30 vezes, um embaixo do outro se referindo a todos os poemas que excluí do blogue.

Para mim, poemas nunca se prenderam às regras gramaticais e a licença poética sempre me pareceu ser muito mais do que apenas uma incorreção da linguagem permitida na poesia. Poesia é liberdade de expressão, o escritor se desprende da normatividade das regras gramaticais em busca de atingir seus objetivos de expressar o que sente. A poesia não é e nem deve ser engessada, dura, construída com cimento sob normas que poucos seres humanos obedecem. Se eu soubesse em 2016 o que sei hoje sobre poesia, com certeza não teria ficado em silêncio enquanto aquele ser humano debochava da minha ingenuidade. Mas não tem jeito, a praga foi jogada. Não consigo mais escrever poemas, sinto pavor em receber uma crítica. A categoria de “poemas” do blogue já não tem nenhuma poesia, apenas textos aleatórios.

– Rejane Leopoldino

 

Arqueofeminismo de Maxime Rovere

 “Tudo o que os homens escreveram sobre as mulheres deve ser suspeito, pois eles são, a um tempo, juiz e parte”.
François Poullain de la Barre (1647-1725)

Há um livro que indico imenso a leitura, ele chama-se “Arqueofeminismo” organizado por Maxime Rovere, livro este que me inspirou a escrever esse texto e com certeza, a escrever outros tantos e que reúne em um volume textos escritos por duas mulheres fabulosas, Marie de Gournay e Olympe de Gouges e que estão entre as maiores intelectuais dos séculos XVII e XVIII, assim como três textos escritos por homens, François Poullain de la Barre, Choderlos de Laclos e Nicolas de Condorcet, que defenderam a presença das mulheres nos campos políticos, intelectuais e da vida pública. Leiam, de verdade.


A história das mulheres na filosofia foi acobertada. Da antiguidade ao início do século XX a sociedade patriarcal européia reservou o estudo das letras e da filosofia aos homens. Esse monopólio da educação esforçou-se muito em manter as mulheres longe dos campos filosóficos, da literatura e até mesmo da política.
O  monopólio patriarcal não obteve sucesso. Ao longo da história, é possível encontrar vestígios de mulheres que contribuíram imenso para os marcos de sua época. São algumas delas: na Grécia, Temista e Hipátia, famosa neoplatônica; no mundo cristão há também Hildegarda de Bingen (1098 – 1179) e Cristina de Pisano (1364 – 1430); no mundo islâmico, Fatima bint al- Muthanna, (século XII) entre tantas outras mulheres, e se essas mulheres (que são exceções na história por terem conseguido se educar), não conseguiram dar uma voz maior aos seus pensamentos, é em parte porque na história da filosofia, a Grande Narrativa, entoa aos nomes de Sócrates, Platão, Descartes, Tomás de Aquino, Kant… como diria Maxime Rovere, ao criticar o patriarcado no campo da filosofia, “continua a ser uma história de homens, feita por homens e para sua própria glória”.

É tentar tapar o sol com a peneira achar que a história da filosofia se desenvolveu durante alguns milênios sem a presença das mulheres. Para ir contra a narrativa que esconde as mulheres que contribuíram no campo da filosofia, é preciso um ardo trabalho arqueológico para que seja possível reequilibrar a maneira como contamos a história da filosofia que recobriu as importantes contribuições trazidas ao pensamento pelas mulheres e pelas questões levantadas por elas.

– Rejane Leopoldino

 

São muitas respostas para uma única pergunta e Amélia é uma paciente difícil.

Amélia acordou cedo, às 05:30 da manhã ela já havia tomado banho, vestido seu roupão branco, preparado o chá matinal de hortelã e sentado na cadeira de sua escrivaninha em uma infeliz segunda-feira nublada. Ela abre o notebook e fita os seus livros salvos em documentos do Word. Amélia já está mais do que aflita, quatro obras inacabadas e sem a menor previsão de serem concluídas. Pega a xícara, assopra a água quente do chá e dá um gole. Por que não conclui as obras? Não é falta de tempo, disso ela tem certeza, pois dedica-se todas as manhãs à acordar cedo para escrever, contudo, há uma enorme área cinzenta entre acordar para escrever e escrever de fato. Amélia abre um dos arquivos do word, seu primeiro e mais antigo livro está com 127 páginas, quase concluído, o segundo, 43 páginas, o terceiro, 86 páginas, já o quarto, apenas 22. Ela se descontenta com seus livros dia sim dia não, por diversas vezes já chegou a deletar todos eles antes de dormir, mas acordava no meio da madrugada para recuperá-los da lixeira eletrônica. Madrugadas estas em que não voltava a dormir, ficava acordada até nascer os primeiros raios de sol tentando ao máximo dedicar-se à escrever uma linha que fosse, contanto que fosse uma boa linha.

Conversa com o terapeuta, na mesma segunda-feira, algumas horas mais tarde:

“Por que não conclui ao menos um, Amélia?” – pergunta seu terapeuta cruzando as mãos em cima do colo.
Amélia pensa um pouco, suspira pesado se ajeitando na poltrona, começa a morder os lábios inferiores até deixá-los vermelhos. “Não me acho uma escritora boa o suficiente, não acho os livros bons o suficiente.”
O terapeuta descruza as mãos e apoia o cotovelo direito na braçadeira da poltrona, levando a mão ao queixo. “E o que é o suficiente para você?
Amélia não precisou sequer pensar para dar a resposta, na verdade, ela se surpreendeu pelo seu terapeuta ter feito esta pergunta, pois achava a resposta óbvia demais. “Nada menos do que perfeito, que cause espanto, que prenda o leitor, que o faça ler e reler os livros, devorá-los, e se não for pedir muito, que seja considerado um marco da época.” 
O terapeuta não conseguiu esconder o ar de espanto na sua expressão “Não acha que está se cobrando demais?”
Amélia sentiu como se a pergunta fosse um soco na boca do estômago, aliás, um soco teria ferido menos seu ego. “De forma alguma! se eu já não me encanto mais com o que escrevo, como outros vão se encantar?”
O terapeuta raciocinou por alguns segundos, arrumou a armação do óculos e respondeu: “Vamos utilizar uma analogia: depois de alguns anos em um relacionamento, é perfeitamente natural que aos poucos se perca o brilho do primeiro encontro, o fascínio em desbravar outro alguém, sejam seus sentimentos ou seu corpo, esse fascínio se esvai, mas isso não quer dizer que a pessoa se tornou menos interessante, quer dizer apenas que já a conhecemos o suficiente para não nos impressionarmos com facilidade, contudo, essa pessoa será sempre mais interessante para alguém que ainda não a conheça. O mesmo vale para seus livros, não acha? Você pode não estar mais impressionada, mas isso não quer dizer que eles não sejam impressionantes para outros leitores, apenas que você perdeu o fascínio por eles.”
“E o que você sugere que eu faça? Procure algo que ainda me interesse neles?” Amélia respondia debochada, duvidando da capacidade do seu terapeuta em oferecer uma solução.
“Fortaleça o seu relacionamento com seu livro mais antigo, procure pelo o que te motivou a escrevê-lo. Já chega de arranjar amantes, você está namorando um e se relacionando com outros três.” o terapeuta se referia aos outros três livros inacabados que Amélia havia começado antes de terminar o primeiro.
“É pra isso que estou pagando esta hora?”

– Rejane Leopoldino

Tenho que ir, vou encontrar César para almoçar e não quero me atrasar.

Um amigo muito querido e mais de vinte anos mais velho do que eu chamado César, me disse uma vez quando eu tinha 16 anos, há 5 anos atrás enquanto tomávamos o café da tarde em uma cafeteria, que conforme eu fosse ficando mais velha eu reafirmaria minha identidade com menos preocupações em ser ou não aceita socialmente. Ele não estava errado. Com 16 anos eu ainda fazia um esforço considerável para ir às festas que meus amigos me chamavam, me “enturmar” como dizemos. Hoje já não mais. Se alguém me perguntar se eu quero ir a alguma festa, eu direi que não, e se me perguntar o por que, direi que é porque eu não quero/não gosto. Simples assim, sem enrolações, sempre fui muito mais chegada aos bares do que as movimentadas baladas, pois aglomerações de pessoas me incomodam imenso. Reafirmar meus gostos foi um trunfo na manga, com o tempo meus amigos já sabiam do que eu realmente gostava ou não de fazer e pararam de me forçar a participar de reuniões sociais regadas a música alta, bebida e aglomerações de pessoas suadas.

Com o tempo eu também adquiri minhas preferências, parei de me espelhar nas referências das pessoas que eu admirava e criei minhas próprias, se a três anos atrás eu gostava da livraria Martins Fontes na Av. Paulista, porque um amigo dito “intelectual” gostava também, hoje eu sei que prefiro dez vezes mais a Livraria da Travessa, também na Av. Paulista, mas dentro do Instituto Moreira Salles, uma livraria intimista, em um espaço repleto de exposições e manifestações artísticas, é aconchegante.

Nos últimos anos também percebi que eu tenho uma preferência pelas mulheres e escritoras que falem sobre a trajetória  feminina na filosofia e não só. Marie de Gournay, Mary Wollstonecraft, Olympe de Gouges pseudônimo de Marie Gouze, entre outras mentes brilhantes que não desapontam em abordar como a pouca escolaridade  feminina desde o século XVI ao fim do século XVIII foi uma ferramenta fundamental para que os homens se destacassem como superiores às mulheres. Todas elas em seus respectivos espaços temporais, trazem visões muito diferentes que viriam a contribuir alguns séculos depois para o pensamento feminista.

Mas já estou começando a divagar, o que quero dizer por fim, é que no pouco tempo em que habito este planeta, reafirmar meus gostos tem sido muito melhor do que me adequar as expectativas alheias.

– Rejane Leopoldino

Noivado secreto, casamento ilegal.

Uma repórter americana viaja até um vilarejo rural no Rajastão com sua intérprete para participar de uma cerimônia de noivado que a ajudará a escrever uma reportagem sobre os costumes matrimoniais daquela região. O noivado é de Nulaja, 5 anos, segunda filha de um agricultor a quem vamos chamar de sr. F. Quando Nulaja atingir a puberdade, mais precisamente a menarca, ela se casará com Hathab, que agora tem 10 anos e vem de uma família respeitada.

Em um quarto dentro da casa do sr. F, as esposas do vilarejo e a mãe de Nulaja a estão preparando para o cerimônia. Nulaja não faz ideia do que está acontecendo, ela brinca, corre e sorri para a câmera da repórter até que sua mãe a pega no colo para dar-lhe banho em uma bacia grande com água morna. A mãe de Nulaja tem apenas 19 anos.

Legalmente, as indianas só podem se casar depois dos dezoito anos, então a cerimônia de noivado é feita em sigilo, e acontecerá somente à meia noite, pois caso um policial não subornável apareça, o sr. F. pode ser preso. – como de fato deveria.

A repórter e sua intérprete estão sentadas conversando no chão de pedra do quarto onde Nulaja toma banho rodeada por quatro outras mulheres que fazem seu trabalho em silêncio. A repórter conversa em inglês sobre o quão abominável é o fato de que Nulaja, ainda tão jovem, estar condicionada ao casamento arranjado pela família. A intérprete diz aquele caso, embora seja horrendo não era dos piores: principalmente na àrea rural da India, é comum que as meninas se casem com noivos cinco ou sete anos mais velhos do que elas, mas em outros lugares como no Afeganistão, ou no Iêmen, por exemplo, Nulaja poderia estar se tornando noiva de um homem de 25 anos, para casar-se com ele quando ela tivesse 13 e ele 33, nesses casos, alguns noivos nem sequer respeitam a gauna, (cerimônia de tranferência física de uma noiva para a família do noivo), e estupram a noiva antes da cerimônia de casamento. Eles fazem isso com a desculpa de que querem “provas” de que estarão se casando com uma virgem, revela a intérprete.

As mulheres que estão banhando a criança olham para a repórter quando ela começa a conversar em outra língua, demonstrando claro desconforto com sua presença naquele lugar. A repórter pergunta para a intérprete com uma voz ainda mais baixa, se alguém, mãe ou irmã, já conversou com Nulaja sobre o fato dela estar se tornando noiva. A intérprete  balança negativamente a cabeça e responde que para encorajar a noiva a não se rebelar contra o casamento conforme ela for crescendo e chegando cada vez mais perto do matrimônio (o que poderia causar uma grande vergonha e desonra para a família), as outras mulheres preferem não dizer nada. Conforme ela for crescendo, continua a intérprete, Nulaja irá ouvir com frequência o termo paraya dhan, que significa “riquesa de outro” e se aplica as filhas que ainda moram com os pais.

Para a repórter e a intérprete é difícil resistir ao desejo de salvar Nulaja. Pegar ela no colo quando ninguém estiver olhando e sair correndo do vilarejo numa tentativa de impedir o noivado a todo custo.

A intérprete e a repórter conseguiram conversar com as mulheres do vilarejo enquanto aguardavam a cerimônia de noivado começar. Segundo uma das mulheres, de aproximadamente 52 anos e que aparentava ser a mais velha daquele lugar, a mãe de Nulaja casou-se aos 11 anos com um homem de 18, logo após a sua menarca, e pouco tempo depois deu à luz com 13 anos. Ela teve hemorragia interna após a consumação do casamento e após o parto, mas não tinha educação nem acesso à informação para se cuidar e essa é uma realidade frequente entre as mulheres daquele vilarejo.

  • Muitas meninas, por casarem-se cedo, também sofrem ruptura dos orgãos internos provocada pela relação sexual e morrem devido a hemorragia, este fato é diminuido entre os maridos, dizem que é uma normalidade e por conta disso não levam essas jovens ao hospital.
  • Quando as meninas vão ao hospital em trabalho de parto (se forem à um hospital), as enfermeiras precisam explicar à elas o que está acontecendo. Com 13 anos elas sabem que é um bebê? que uma criança está saindo delas? Nem todas.
  • O Islã não permite relações conjugais antes que a menina esteja fisicamente pronta, mas o Alcorão Sagrado não menciona nenhuma restrição de idade. E sabemos como a interpretação deste livro é subjetiva, varia de pessoa para pessoa.

– Rejane Leopoldino

Brasil e mulheres

Minha avó Arestides teve oito filhos durante os anos de 1930 e lá vai bolinha:
Augusto
Carlos
Maria
Lourdes
Amélia
Adenildo
Miriam
Eliane

Minha mãe Miriam teve dois filhos depois de 1970:
Wagner
Rejane

Wagner nasceu em 1976 e embora tenha sido casado por mais de vinte anos, não teve filhos, mas criou a irmã mais nova.

Rejane nasceu em 1998 e não pensa em ter filhos, ao menos por enquanto, e se tiver que seja apenas um, mas também pode ser um cachorro ou um gato.

Embora não seja um fenômeno exclusivo do Brasil, aqui o tamanho das famílias sofreu uma quedra brusca nas últimas cinco décadas. Famílias ricas, ou pobres que vivem na cidade ou no campo, a maioria delas parecem ter atualmente o consenso de que um ou dois filhos é o suficiente para a constituição de uma família. Cynthia Gorney, repórter da National Geographic que escreveu uma matéria sobre a queda da taxa de natalidade no Brasil, cita alguns fatores que podem ter infuênciado esta queda:
– Mulheres passaram a ter um papel mais expressivo na força de trabalho do país;
– Melhora no nível educacional dos jovens;
– Em 2011, quase 85% da população vivia em áreas urbanas, onde uma família menor é economicamente mais vantajosa;
– Acesso à energia elétrica e tecnologia. Em 1960 o acesso as telenovelas realmente produziram um efeito sobre a taxa de natalidade. No fim das contas, a frase que meu irmão mais velho dizia ouvir dos nossos avós maternos: “nós faziamos filhos porque no meu tempo não tinha televisão” parece ser verdadeira. Nas telenovelas, nove em cada dez personagens tem apenas um filho ou nenhum, o que pode ter influenciado as brasileiras a desejarem uma família menor.
– Também em 1960 as pílulas anticoncepcionais chegaram ao mercado.

Fatores todos estes que influenciaram as mulheres a se prepararem para um planejamento familiar antes de se construir uma família. Durante 1970 e 1980 quando o Brasil voltou a ter grande influência feminista, (depois do voto ter sido conquistado em 1932 durante do governo de Getúlio Vargas, embora somente em 1946 a obrigatoriedade tenha sido extendida para as mulheres) quando termos como o “machismo” passaram a ser frequentes no vocabulário, as mulheres já se encontravam mais cientes de como a violência familiar e doméstica não deveria ser uma realidade natural. Passaram então a assumir o controle da sua vida amorosa com mais poder de decisões na família do que antes.

O sonho de uma mulher no século XXI já não está mais ligado à constituição de uma família, essas mulheres almejam em primeiro lugar uma boa educação, em segundo lugar, idependência financeira e estabilidade profissional e em terceiro lugar uma relação amorosa e quem sabe, casamento. Não entendam mal, criar filhos não sumiu dos desejos modernos, contudo ainda há muitas dificuldades enfrentadas pelas mulheres que estão ativas no mercado de trabalho e desejam um filho, como por exemplo o fato de metade das mulheres grávidas serem demitidas na volta da licença maternidade.

Questões aquisitivas são determinantes para a decisão de se ter ou não filhos, e quantos filhos ter, afinal, quanto custa ter um filho? E não estou a falar apenas do dinheiro.

– Rejane Leopoldino

Referência: Gorney, Cynthia. “Elas têm a força.” National Geographic Brazil, 2011, p. 40+. National Geographic Virtual Libraryhttp://tinyurl.galegroup.com/tinyurl/6oTb39. Accessed 19 July 2019.

 

 

 

 

 

 

Relacionamentos abusivos, buzzfeed e como boa parte da minha geração, infelizmente, precisa de incentivos para se informar sobre algo.

Não é preciso me conhecer a fundo para saber que eu tenho uma posição extremamente firme contra a violência doméstica e familiar e busco apoiar projetos e ações que defendam o combate às agressões ou procuro dar suporte emocional para mulheres, filhos ou filhas que sofreram qualquer tipo de violência durante um relacionamento abusivo.

Eu já vi diversas amigas minhas entrarem em um relacionamento abusivo e permanecerem neste relacionamento por não saberem identificar a tempo as características de um namorado(a) abusivo(a). Quando eu sentei com uma amiga minha  a cerca de onze meses atrás para conversar sobre como o relacionamento dela com o seu companheiro não era saudável, já era tarde demais, ela estava emocionalmente dependente dele e achava correta e natural a forma possessiva com que ele a tratava. Eu sei que assuntos como este devem ser abordados da forma mais delicada possível com a vítima, mas mesmo com a minha delicadeza, ela viu a minha conversa como um afronto à relação dela com o seu companheiro, e por consequência disso, ela se afastou de mim.

Em uma época tecnológica, onde a informação se encontra a um click de distância, parece cômico que ninguém se informe sobre nada. Poucos adolescentes e jovens adultos sabem identificar um relacionamento abusivo, pois para você absorver uma informação é necessário ler a respeito, e muitos seres humanos não parecem (e de fato não estão) interessados nisso. Sendo assim, eu defendo uma abordagem dinâmica, moderna, rápida, tecnológica e que promova engajamento entre os “jovens de hoje em dia”, como ferramenta para iniciar a discussão de temas tal qual o abuso infantil, relações abusivas, violência familiar e doméstica, narcisismo familiar, etc.

Felizmente algumas plataformas como o BuzzFeed sabem trabalhar as suas publicações para engajar as atuais gerações que se alimentam constantemente de likes e hashtags, em temas urgentes, promovendo o debate saudável com o auxílio da internet em publicações interativas, coloridas, compartilháveis e instagrameáveis que ajudam a difundir a importância do diálogo.

Disponibilizo aqui, sim, aqui mesmo, pode clicar, um dos famosos “testes do BuzzFeed” produzido pela repórter do BuzzFeed News Brasil, Tatiana Farah, que busca disponibilizar de uma forma interativa as características de um relacionamento abusivo.

– Rejane Leopoldino

Celibato

Sexta-feira à noite, Nicolas entra no bar com temática ironicamente religiosa em São Paulo, e caminha até sua amiga de faculdade que está sentada no balcão de frente para uma cruz vermelha neon na parede, uma das poucas luzes daquele lugar, com seu costumeiro sobretudo azul escuro, bebendo o que parecia ser uma Margarita. Nicolas se senta na banqueta ao lado da sua amiga. -Eu só ouço falar de você aqui neste bar, Clarice. Ela sorri pousando a bebida no balcão. Então já sabe onde me encontrar. responde. Queria falar com você sobre a Andressa, ela é sua amiga há anos e estamos passando por um momento difícil no relacionamento… – Clarice ouve o amigo enquanto vira o que sobrou da Margarita – e queria saber se você teria algum conselho? Pergunta olhando para a cruz vermelha na parede, felizmente não prestou atenção no rolar de olhos de Clarice. Nicolas, eu não sei se a minha versão alcoolizada é a melhor para dar conselhos, mas se quiser uma opinião sincera, acho que ela vai terminar com você em breve. Ele volta os olhos para sua amiga com uma expressão chocada enquanto a vê se dobrar sob o balcão e cochichar algo no ouvido do barman que responde à ela com um sorriso e uma piscadela. Por que diz isso? E o que foi isso entre você e o barman? – pergunta com uma voz urgente e incrédula. Clarice olha para seu amigo de cima a baixo. A barba por fazer, as olheiras, o cheiro forte de cigarro barato em suas roupas… Nicolas era um rapaz interessantíssimo anos atrás, inteligente, matemático promissor, mas no último ano se entregou aos jogos de poker, está viciado em apostas, Andressa várias vezes vinha ao mesmo bar em que os dois estavam sentados agora, desabafar com Clarice sobre o dinheiro que Nicolas estava perdendo nos jogos. – Digamos que seja um palpite, meu caro amigo. Responde Clarice após fazer uma breve análise. O barman volta com um drink grande feito com gin, morangos, hortelã e algumas outras coisas e entrega à Clarice com um sorriso piscando para ela novamente. Ah, sim, e sobre o barman… – Clarice se inclina para Nicolas, gesticulando para que ele se aproxime e sussurra em seu ouvido: Ele está me dando doses duplas de tequila e gin nas minhas bebidas, tenho que manter o charme. Revela com um sorriso pomposo. Eles se afastam. Essa bebida aqui, por exemplo, -aponta para a taça- pedi em sua homenagem, é um drink da casa feito com gin, ela se chama “Celibato”. Nicolas não entende a referência, e por que é em minha homenagem? pergunta confuso. Oh… você não sabe o que “Celibato” significa? Nicolas balança a cabeça negativamente semi-serrando os olhos. Clarice ri. Amanhã você saberá. Diz por fim, dando um gole.

Na noite seguinte, Nicolas voltou ao bar, não precisou marcar encontro, sabia que Clarice estaria lá. Ele sentou-se ao lado dela no balcão, novamente de frente para a cruz vermelha, sem falar nada, com aquela cara de choro, olhos e nariz vermelhos. Clarice tomou o último gole de seu Apple Martini, olhou para o amigo derrotado ao seu lado que fitava o chão do bar, Clarice riu baixo, se espreguiçou jogando os braços atrás da cabeça, e deu um grito para o barman: Aí, Jack! O barman que secava os copos de costas para os dois amigos se virou com um sorriso para Clarice. -Me vê dois Celibatos.

– Rejane Leopoldino

Dicionário informal

Quando eu era criança, digo, com meus 9 anos, o meu irmão mais velho a quem chamo de “Tato” (Tato é um apelido carinhoso dado aos irmãos mais velhos pelos mais novos, era um apelido mais comum, segundo meu avô, na década de 60 e se meu avô disse, é verdade) me incentivou a ler o dicionário, um pouquinho por dia com o objetivo de deixar o meu linguajar mais sofisticado e menos repetitivo. Era pra ser um pouquinho por dia mas eu li em duas semanas (veja, eu era uma criança que não saía para brincar, tinha muito tempo livre depois da escola), e também… acho que ele nunca acreditou que eu leria o dicionário inteiro de A à Z. Bom, eu li. Assimilei uma boa parte, principalmente porque anotava em um caderno as palavras divertidas e engraçadas que eu encontrava. Eu lembro de rir muito com a palavra “rechaçar” algo na fonética dessa palavra me fazia rir, não me lembro o quê ao certo, mas o significado não é tão engraçado.

Bom, não sou mais uma criança de 7 anos, porém ainda mantenho um caderninho onde anoto as palavras que não conheço. Quando estou lendo um livro e me deparo com uma palavra desconhecida, eu pesquiso o significado e o anoto no caderninho, além de escrever uma aplicação em uma frase para assimilar com mais facilidade.

O meu pobre caderninho deve ter seus 5 anos de idade, ele é um caderninho de bolso, pouco maior que um bloco de anotações, já está surrado, e sim, algumas folhas estão caindo, mas tem lá seu valor…

– Rejane Leopoldino