Férias.

Caros leitores, não tenho palavras para descrever meu desejo pelas férias. Férias da faculdade, do trabalho e das obrigações semanais. Creio que esse desejo pelo ócio e lazer despertou em mim após um trabalho da faculdade onde deveríamos analisar quanto tempo livre realmente temos no nosso dia a dia já que o nosso tempo total é dividido em tempo necessário ( trabalho e necessidades vitais ), tempo liberado ( após o trabalho ) e tempo livre ( parte do tempo liberado realmente disponível ). A percepção de como o meu tempo livre ( e o de outros trabalhadores ) é escaço me fez ter um maior desejo pelo fim do ano e por cada feriado. Não que eu não goste de trabalhar ou estudar, adoro o que faço, mas as energias que são gastas e sugadas ao longo do dia me desgastam, além de prejudicar meu psicológico ter tantos planos voltados para a minha vida pessoal que são deixados de lado por falta de tempo livre para realiza-los.

” Mas Rejane, e o fim de semana? ”

Responsabilidades no fim de semana também são desgastantes e ocupam muito tempo, namorado, amigos, familiares, além do estudo da faculdade, tarefas domésticas… Quando dou por mim já são seis da tarde de um sábado e não consegui por meus planos em dia. O tempo para o ócio fica a cargo do domingo, e olhe lá!

Coisas interessantes que aconteceram enquanto eu redigia esse texto.
A contabilidade do escritório envia os Holerites da primeira parcela do 13º salário. Fico bem contente.
Começam a falar sobre o amigo secreto, o que é ótimo pois me lembra que as férias estão chegando! Mas não vou participar deste, já tenho outros dois amigos secretos para participar.

 

 

 

 

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Conheçam o Willy.

 

Willy 6
Willy, a inspiração para meu livro ” Lighthouse”

Esse é o meu bebê, Um Yorkshire Terrier, o melhor presente que eu poderia ganhar na vida. Ele veio para mim com 4 anos de idade, eu tinha 8 anos naquela época e desde então nos tornamos inseparáveis. Muitas histórias se desenvolveram e 11 anos depois ele ainda está ao meu lado, meu velhinho, meu presente mais querido. Hoje ele tem 15 anos, já passou da fase de roer os móveis, destruir chinelos, brincar com a bolinha, correr como antes, latir como doido… Mas ainda é meu filho. Hoje ele gosta de fazer o xixi dele na rua, sair pra passear bem devagar, comer um sachê e principalmente dormir, como gosta de dormir. Ele é a personificação canina de um aposentado.

Ao longo dos dias e dos próximos capítulos do meu livro, vou introduzindo mais informações sobre meu amado filhote de 15 anos.

Lighthouse. – Capítulo 1

Clarice estava deitada ao lado de Willy já fazia algum tempo, então levantou-se e tirou a terra de suas roupas e cabelo castanho ondulado e chamou seu cachorro que começou a segui-la para fora do campo. Ela caminhava de cabeça baixa passando os dedos pelo mato que chegava na altura da cintura e sentia o vento frio batendo no seu rosto gelando seu nariz e fazendo seus curtos cabelos balançarem. Clarice sabia que seus amigos estariam na garagem de Arthur, a mãe dele não tinha carro, então, deixou que ele transformasse a garagem em um modesto salão com sofás, televisão e alguns jogos. Arthur era um rapaz alto, simpático, cheio de pintas pelo corpo e que adorava praticar travessuras. Seus amigos zombavam com uma pinta em particular em seu ombro direito que tinha a forma de uma baleia. Quando crianças, eles diziam que a baleia tinha fome e iria comer todas as outras pintas no corpo dele.
Arthur não morava longe, todos os amigos de Clarice moravam consideravelmente próximos uns dos outros, ao chegar na casa dele, o Willy que andava solto na frente de Clarice já começava a arranhar o portão cinza da garagem para anunciar sua chegada, foi Andressa quem abriu o Portão e pegou o cachorro mais amado do bairro nos braços para encher de beijos.
Andressa tinha longos cabelos lisos e retos, usava aparelho nos dentes há anos e já estava suspeitando se a dentista não a estava enrolando.

– Oi – disse Clarice dando risada da cena. Incrível como esse cachorro podia roubar tanta atenção.

– Quem é o bebê mais lindo desse mundo? Quem é? É você! – Andressa não se continha, embora gostasse muito mais de gatos ela tinha uma boa relação com cachorros. – Oi querida, tudo bem? – disse ao finalmente largar o Willy que foi correndo cumprimentar os outros com seu charme.

– Sim. Está frio lá fora, tem cobertas aqui?

– Sim.- Foi Daniel quem respondeu a pergunta de Clarice estendendo uma coberta para ela. Assim como Clarice, Daniel tinha cabelo ondulado, seus olhos eram um pouco juntos e tinha um corpo esguio.

– Obrigada. O que estão assistindo? – Perguntou ao Daniel. As luzes estavam apagadas e todos estavam sentados no sofá enrolados em cobertas.

– Uma comédia Romântica. O Cara está tentando se casar com uma atriz famosa mas os fotógrafos não os deixam em paz. Então eles resolvem fugir para uma ilha.

Clarice se enrolou na coberta e se acomodou ao lado de Andressa para ver o filme. Todos estavam esticados nos sofás e poltronas. Era bom estar com seus amigos, eram uma família de 5. Andressa, Arthur, Clarisse, Daniel e claro, o Willy. Ficaram quietos no escuro vendo o filme por mais de uma hora até que o silêncio foi interrompido por uma luz vindo de trás dos sofás.

– Achei que você estivesse sozinho aqui em baixo, filho. – A voz era da mãe do Arthur, Senhora Helena, uma mulher alta de cílios longos como de uma boneca e tão cheia de pintas quanto o filho. Em seguida ela acendeu a luz da garagem – Como vão os amigos do meu filho que acabam com a minha comida? – Ela disse debochando e com um sorriso passou pela sala cumprimentando com um caloroso beijo na testa um a um. Inclusive o Willy que estava dormindo tranquilamente – Vão ficar para o jantar?

– Se não tiver problemas… –  disse Andressa fez beicinho ao dizer, como se estivesse pedindo permissão.

– Claro que não. Só avisem seus pais antes, não quero nenhum policial batendo na minha porta atrás da filha. – Helena dirigiu os olhos para Andressa, pois seu pai era policial. Ambas riram, Helena sempre foi muito hospitaleira e carinhosa, sem contar que cozinhava muito bem, era divorciada do pai do Arthur, este vivia no interior com sua nova família da qual Arthur não sabia muito a respeito nem procurava saber. Foi o desgaste do tempo na relação que fez com que se divorciassem e embora ele não guardasse nenhuma mágoa de seu pai, não tinha intenção em fortalecer algum vínculo paterno. Faziam 15 anos desde que eles se separaram e desde então e cada vez menos, o pai dele demonstrou interesse em estabelecer algum contato.

A casa de Arthur era bem confortável, tinham tapetes por todo canto e cortinas pesadas para proteger a casa do frio que entrava pelas frestas das janelas. A cerca de 5 anos eles tiveram um sério problema com cupins, mas apesar disso a Sra. Helena continuava a usar móveis de madeira por toda a casa, além do piso e das portas também.
A comida tinha um cheiro delicioso, a mãe de Arthur preparava um delicioso peixe frito e lasanha para o jantar, o cheiro inundava a cozinha e todos já estavam salivando pela comida.

Daniel e Arthur estavam ajudando Helena a empanar e fritar o restante dos peixes enquanto Clarice e Andressa arrumavam a comprida mesa retangular colocando toalha, talheres, pratos e copos. O resto do jantar foi repleto de elogios pela comida, Willy comeu um pouco de ração que o Arthur tinha em casa para caso ele fosse para lá, além de cobrir com jornal um espaço da lavanderia para que ele pudesse fazer suas necessidades. Sra. Helena perguntava sobre como iam as famílias, tudo ia bem, aliás, mesmo que tudo estivesse péssimo ninguém falaria para ela, não queriam que ela se preocupasse com alguma coisa.
Todos decidiram dormir na casa de Arthur naquela sexta feira pois planejavam passear no dia seguinte, porém a Sra. Helena fez questão que todos usassem o telefone para contatar seus pais e irmão no caso de Clarice, que iriam passar a noite na casa deles.

Todos já estavam acomodados no quarto de Arthur em colchões extras, haviam colocado todos os colchões um do lado do outro para que dormissem juntos como sempre fizeram desde crianças. E claro, Willy estava dormindo aos pés de Clarice. Estavam todos deitados conversando sobre as lembranças de quando eram crianças.

– Lembram quando éramos crianças e fomos para a praia e estava no inverno, mas eu perguntei para o meu pai se a água estava boa para molharmos os pés e ele disse que não havia motivo para água estar fria. Então nós tiramos as galochas e fomos todos correndo animados para o mar e quando molhamos nossos pés na água congelante saímos correndo e gritando desesperados? – Todos deram risada, Daniel era o que tinha a maior facilidade para lembrar de histórias de quando eram crianças. – E a Clarisse ficou chorando no canto porque ela ficou brava por ter molhado o pé na água gelada.

– Jamais irei perdoar seu pai – debochou Clarice. – seu sorriso era largo pela recordação da memória.

– E quando fomos ajudar o Arthur a tirar a tranqueira da garagem para fazer o salão e encontramos um rato? A Andressa estava tranquila mexendo nos quadros velhos que estavam no chão quando de repente ela dá um pulo pra trás e sai correndo sem falar nada e nos deixa sozinhos lá olhando com cara de bobo um pro outro tentando entender o que aconteceu quando nós vemos uma coisinha preta vindo na nossa direção e do nada começamos a correr e a trombar um no outro pra sair da garagem. – Clarice falava entre risos, já estava com o rosto vermelho quando Arthur acrescentou.

– E quando chegamos dentro de casa ela estava na cozinha chorando e lavando as mãos desesperada.

– Vocês acham engraçado porquê não fazem ideia do susto que eu tomei. – disse Andressa rindo a contragosto.

– Você tomou susto? Nem avisou pra gente que tinha um rato ali, você não sabe a briga que foi sair por aquela portinha da garagem pra dentro de casa, tinham 3 tentando passar por aquela porta ao mesmo tempo! – disse Arthur quase sem ar.

– Sabem, eu fico feliz de ainda ter vocês por perto, quantas pessoas nós conhecemos que levam suas amizades desde quando eram crianças?  – disse Andressa reflexiva enquanto mexia em uma mecha do seu cabelo quando todos pararam de rir.

– É verdade, a maioria dos nossos colegas de escola trocam de amigos como trocam de roupa. – disse Daniel.

Todos eles estudavam juntos em uma escola que já existia a muito tempo, a mãe do Arthur estudou lá no colegial e alguns professores que davam suas aulas lá também foram alunos. Era uma escola velha em uma antiga cidade costeira.

– Ás vezes, penso nas pessoas que já foram nossos amigos e hoje apenas nos cumprimentam na rua, ás vezes nem cumprimentam. Elas agem como se o que vivemos juntos tivesse sido superficial, talvez tenha sido para elas. – disse Clarice se sentando para poder falar enquanto olhava os outros que estavam deitados a observando. –  É uma pena que já não possamos mostrar as pessoas que já estiveram ao nosso lado como elas foram importantes para nós e como foram bons os momentos que passamos juntos.

– Eu penso que se uma pessoa se afasta de você, é porque o que você viveu com ela foi realmente superficial o bastante para ela não ter a vontade de continuar ao seu lado e talvez não vale a pena tentar demonstrar o quanto elas algum dia foram importantes. – disse Arthur entre um bocejo.

Clarice voltou a se deitar e como um desejo de boa noite não expresso, fez-se silêncio e todos fecharam seus olhos para mergulhar no mundo de sonhos indivisíveis.

No dia seguinte o sol brilhava e não haviam nuvens no céu embora o vento ainda estivesse forte e um pouco frio. Willy foi o primeiro a acordar e como era de costume, logo cedo ele choramingava perto de Clarice para que ela acordasse e o levasse para dar um passeio na rua. Willy choramingou algumas vezes perto de sua dona e quando percebeu que isso não surtia efeito, ele deu umas leves patadas no nariz dela e ao vê-la abrindo os olhos, deu um baixo latido como quem anseia pelo passeio matutino diário.

– Já entendi bebê… – disse Clarice ao se espreguiçar preguiçosamente e levantar da cama.

Willy andava junto das pernas de sua dona e abanava freneticamente o rabo enquanto Clarice cambaleava pelo quarto em busca de uma blusa de frio para vestir, ela encontrou sua blusa junto a suas outras roupas em uma cadeira e a vestiu.

– Vamos lá. – disse Clarice a seu cachorro que saiu correndo na sua frente descendo as escadas, abanando o rabo e batendo a pata na porta de entrada da casa.

Willy já estava passeando solto na rua a algum tempo, Clarice estava sentada na calçada em frente a casa de Arthur assistindo seu cachorro a percorrer toda a rua pouco movimentada, não passavam carros, era uma rua larga e cheia de árvores e todas as casas pareciam pertencer a um condomínio pois todas tinham o mesmo formato. Clarice estava tranquila com a cabeça apoiada em seus joelhos olhando para seu cachorro quando virou o rosto e avistou um gato no sentido contrário do Willy que o estava observando com curiosidade. Ela sabia da relação de seu cachorro com outros gatos e não queria que houvesse uma perseguição logo pela manhã. Clarice levantou-se lentamente para não atrair a atenção do Willy que estava cheirando uma árvore um pouco mais a frente. Ela pretendia chegar até ele e pega-lo no colo antes que se desse conta da existência de um gato a poucos metros dele. E cada vez mais devagar ela ia chegando perto. Sem sucesso. Quando estava quase o alcançando ele virou a cabeça e avistou o gato, ele rapidamente correu na direção dele enquanto Clarice tentou segura-lo mas ele passou como ar por suas mãos, ela correu atrás dele mas ele estava chegando perto do gato que estava arisco, todo arrepiado em posição de ataque, o Willy pulou em cima do gato que deu uma patada nele e saiu correndo subindo em uma caixa de correio. Willy ficou latindo para o gato que chiava em sua direção até que Clarice o pegou no colo e começou a caminhar de volta para a casa de Arthur mas seu cachorro se debatia e latia no seu colo tentando voltar para o chão para pegar o gato.
Quando voltou para a casa e finalmente o colocou no chão ele enfiou o focinho na fresta da porta para tentar sentir o cheiro do gato.

– Não pode! – disse Clarice para o Willy que a ignorou com sucesso.

– Clarice? – disse Andressa com uma voz que pareceu ter saído da cozinha.

Todos já estavam tomando café da manhã quando ela chegou na cozinha.

– O que aconteceu lá fora? – perguntou Daniel curioso.

– O Willy correu atrás de um gato. – respondeu Clarice com pouco humor enquanto se sentava na mesa. Foi o Arthur que fez os ovos? – perguntou enquanto colocava uma garfada de ovos na boca – Argh, é, foi ele. – Clarice estava ciente da presença de Arthur que entrava na cozinha atrás dela e não pode deixar a brincadeira com a comida dele escapar.

– Eles parecem um pouco secos – disse Andressa entrando na brincadeira.

– É verdade, e posso jurar que vi um pedaço da casca do ovo aqui no meio. – disse Daniel enquanto gesticulava em círculos com o dedo apontando o prato de ovos mexidos.

– Meus ovos estão muito bons, obrigado. – disse Arthur fazendo careta.

– O que vamos fazer hoje? – perguntou Andressa.

– A gente podia ensinar a Clarice a andar de bicicleta. – disse Daniel entusiasmado.

– Verdade, você não sabe andar ainda, não é? – perguntou Andressa para Clarice com um sorriso.

– Não… Nunca aprendi. – disse cautelosa imaginando a capacidade e paciência dos seus amigos para ensina-la a andar em uma bicicleta.

– Eu empresto a minha bicicleta, a rua é boa para andar, podíamos te ensinar aqui na frente de casa mesmo. Assim se você quebrar algum osso nós podemos te levar mais rápido pro hospital. – disse Arthur sorrindo com cara de deboche.

***

Willy estava tomando sol no gramado do jardim enquanto todos estavam na calçada e Arthur trazia a sua bicicleta.

– Isto, Clarice é uma bicicleta. – disse Arthur fazendo piada.

– Nunca teria percebido se não fosse por você. – disse Clarice irônica se aproximando e tocando o guidão. – E como vocês pretendem me ensinar?

– Vamos te empurrar de uma ladeira, se você aprender a pedalar, bom. Se morrer, bom também. – disse Daniel brincando enquanto dava leves tapas nas costas de Clarice.

– Ah, bacana. Gostei. – disse Clarice rindo um pouco nervosa com a piada.

– Vamos, suba na bicicleta. Nós vamos empurrar você até você pegar o jeito. – falou Andressa sorrindo como sempre para dar confiança.

Clarice montou na bicicleta enquanto Andressa e Daniel ficavam cada um de um lado para que se ela tombasse, não caísse no chão e Arthur segurava a traseira da bicicleta para dar equilíbrio.

– Está muito pesada essa bicicleta. Deve ter algum pneu furado. – disse Clarice enquanto tentava pedalar cautelosamente, mas ela precisava fazer uma força enorme para dar uma pedalada sequer. Arthur começou a rir logo atrás dela.

– Arthur, deixa a bicicleta reta. – disse Daniel analisando.

– Olhem as costas dela. – disse Arthur se agachando no chão de tanto que dava risada. E logo, Daniel e Andressa estavam rindo também, Clarice não compreendia o que estava acontecendo, chegou a olhar se havia algo de errado com suas costas ou sua blusa mas não havia encontrado nada de errado. Seu rosto era confuso enquanto olhava como seus amigos estavam rindo.

– O que foi? – Perguntou Clarice tentando compreender o porquê de seus amigos estarem dando tanta risada.

– Eu vou filmar isso. É engraçado demais. Ajudem ela a pedalar. – Disse Arthur entre risos, seus olhos estavam quase lacrimejando com as gargalhadas.

– Só vou se me contarem o que está havendo. – disse Clarice enquanto tentava entender o porquê de até mesmo Andressa, sua amiga tão fiel estar rindo dela.

– Você vai ver no vídeo, continua. – disse Daniel segurando o guidão para dar equilíbrio com o rosto vermelho de dar risada. Clarice olhava para eles com vontade de rir da risada de seus amigos, mesmo que não conseguisse compreender o que estava havendo. Então ela voltou a pedalar e o riso deles ficava cada vez mais forte.

– Já chega, o que está havendo, um pássaro defecou em mim? – disse Clarice procurando algum vestígio de pássaros nas costas de sua blusa. Daniel e Andressa foram até Arthur ver o vídeo no celular dele e todos agacharam na rua rindo quase sem ar. – Deixa eu ver isso! – disse Clarice já preocupada com o que poderia estar havendo. Ninguém se levantou do chão, ficaram lá rindo jogados no meio da rua. Clarice abandonou a bicicleta no chão e foi até eles tirar o celular da mão do Arthur para que pudesse ver o vídeo. Nele, Clarice estava pedalando com a coluna totalmente torta e inclinada para a direita, não era a toa que a bicicleta estava tão pesada e Arthur não conseguia alinha-la em uma linha reta. Clarice estava pedalando quase na diagonal de tão inclinada e torta que suas costas estavam. Realmente era engraçado ver o desespero dela no vídeo, tentando pedalar completamente desengonçada. Clarice começou a rir também e deu um peteleco na orelha de Arthur. – Idiotas. – disse Clarice dando risada do próprio vídeo parada em pé ao lado de seus amigos.

– Que bonitinha. – disse Andressa dando suas últimas risadas e abraçando as pernas de Clarice. – Vamos voltar a te ensinar, suba na bicicleta.

– Mas fica reta dessa vez. – disse Daniel dando suas últimas risadas.

– Eu nem percebi que eu estava torta. – disse Clarice enquanto pegava a bicicleta do chão e montava nela mais uma vez. – Como posso saber se estou torta? – perguntou.

– Sente na bicicleta já reta e olhe para frente, você estava olhando pra baixo. E não faça pressão nas suas costas quando você der a primeira pedalada, você precisa fazer força na perna. – disse Daniel tentando ajudar.

Eles voltaram a ajudar Clarice a pedalar e aos poucos, Arthur ia relaxando mais as mãos da traseira da bicicleta para que ela pudesse pedalar sozinha. Quando chegavam no final da rua, eles voltavam e Clarice continuava pedalando com a ajuda de seus amigos cada vez com mais facilidade.
Um grupo de 3 crianças que aparentavam ter oito ou nove anos passava na rua com suas bicicletas sem rodinhas naquele instante, e começavam a rir de Clarice que tentava aprender.

– Vai ter que andar de rodinha! – Berrou um menino atrevido que vestia uma blusa azul. Os amiguinhos dele ficavam rindo e estacionaram suas bicicletas do outro lado da rua para continuarem a caçoar de Clarice.

– Ignore eles e continue pedalando. São só crianças, elas não tem filtro. – disse Andressa chegando mais perto e tentando acalmar sua amiga que já estava começando a ficar irritada com aqueles pirralhos. Clarice resolveu seguir os conselhos da amiga e ignorar a existência das crianças.

Seus amigos revesavam e trocavam de lugar com Arthur e após quase uma hora, Daniel que estava no lugar de Arthur resolveu soltar a bicicleta, Clarice continuou a pedalar sozinha por mais alguns metros a frente.

– Isso vocês não gravam, não é? – Gritou Clarice contente por estar pedalando sozinha.

– Quem disse? A Andressa está filmando. Agora faz a curva e volta. – Gritou Arthur.

Clarice tentou fazer a curva mas tombou a bicicleta e caiu no chão batendo a cabeça na guia da calçada. Seus amigos foram correndo ajuda-la enquanto as crianças davam risada da cena. Suas pernas estavam enroscadas na bicicleta e ela sentiu uma leve dor latejante do lado direito de sua cabeça. Eles tiraram a bicicleta de cima dela e a ajudaram a levantar.

Haviam alguns arranhões em sua mão e formaria um galo na cabeça um pouco mais tarde, mas fora isso, Clarice estava bem.

– Podia ter sido mais desastroso. – disse Clarice limpando a sujeira de sua calça. Willy que havia visto a queda foi até ela e se apoiando em suas patas traseiras, ficava de pé para chamar a atenção de sua dona que o pegou no colo. – O Willy está mais preocupado comigo do que vocês.  – Disse enquanto ouvia os risos das crianças que estavam forçando a risada cada vez mais para irrita-la.

– Mostre um osso pra ele e ai veremos se ele está realmente preocupado. – disse Andressa enquanto mostrava o vídeo que gravou para Clarisse. – Até que você andou bem, só falta mais um pouco de prática mas até que você aprendeu rápido. – disse sorrindo para Clarice.

– Já quer aprender a voar? – Disse um outro menino rindo, este era loiro e vestia uma calça jeans rasgada.

Clarice estava cansada de ser alvo de piadas daquelas crianças. O Willy também estava estranhando e a risada forçada deles o estava deixando nervoso. Ele rosnava baixinho no colo de Clarice com os olhos vidrados no grupo de pirralhos. Percebendo o incomodo de seu cachorro, ela achou que não haveria mal nenhum dar um susto naquelas crianças, então ela colocou seu cachorro no chão e ele imediatamente foi correndo latindo em direção as crianças que começaram a gritar e subiram rapidamente em suas bicicletas e começaram a pedalar para longe enquanto o Willy os perseguia correndo e latindo atrás deles até eles estarem longe o bastante. Clarice e seus amigos assistiam a cena enquanto riam de longe.

– Temos pouco mais que o dobro da idade deles, devíamos dar um exemplo melhor que esse. – disse Andressa assumindo uma posição mais madura do que seus amigos que estavam rindo da pequena perseguição.

– Foi só um susto. Só pra deixar eles espertos. Vai fazer bem pra eles. – disse Clarice descontraída passando seu braço esquerdo pela cintura de Andressa.

Willy voltava correndo para perto de Clarice após perseguir as crianças até o final da rua. Ela agachou e o pegou no colo para fazer carinho em seu fiel protetor.

– Arthur! – gritou Helena da porta de casa. – Vou visitar minha irmã, tem a comida de ontem na geladeira se quiserem comer.

– Tá bom, mãe! – disse Arthur sorrindo e todos estavam acenando para se despedirem de Helena.

Os cinco continuaram mais um pouco na rua sentados na calçada observando as formigas levarem nas costas as pequenas folhas que encontravam na rua até um pequeno formigueiro que ficava no começo da calçado do vizinho de Arthur. Na casa ao lado vivia era um casal de velhinhos, Senhor e Senhora Boaventura, que lá moravam desde que Arthur se entendia por gente mas era muito raro vê-los, eles já tinham cerca de 80 anos e sempre estavam em viagem, quase nunca paravam em casa. Itália, Marrocos, Tailândia, Rússia e Turquia eram só alguns exemplos de destinos que aquele velho casal costumava viajar. Quando crianças, eles perguntavam a eles se eles viajavam tanto por conta do sobrenome deles. “Boaventura” como se sempre estivessem indo atrás de alguma nova aventura. Sempre que eles saiam para viajar eles invadiam o quintal dos fundos da casa deles e subiam no grande pé de amora que lá ficava. Aquela árvore existia a muitos anos e era bem grande, quando ficava em casa, a senhora Boaventura adubava a terra com muito carinho. Consequentemente sempre davam ótimas amoras, grandes e que ficavam bem vermelhas principalmente no verão.
Um dia quando tinham 7 anos de idade, durante uma das viagens do casal, eles decidiram entrar escondido novamente para roubar algumas amoras, pularam a cerca da frente da casa e foram até a parte de trás onde se encontrava o quintal. Para isso, eles precisavam passar por uma fresta muito fina e pequena que se encontrava no muro lateral da casa que quase encostava no muro de Arthur. Era uma fresta bem fina que dividia as laterais das duas casas, ela ia do chão até o topo de ambas as casas. Como eram crianças, na época eles entravam e saiam com facilidade. Eles entraram, escalaram a amoreira e comeram da fruta até se sujarem completamente, então, eles ouviram um som vindo de dentro da casa. Todos ficaram paralisados em cima da árvore até que Daniel desceu e espiou no canto de uma grande janela retangular da casa do casal que tinha vista para o jardim dos fundos. Ele ficou lá, abaixado olhando para dentro da casa enquanto os outros não moviam um músculo em cima da árvore quando ele se abaixou abruptamente e sinalizou para que seus amigos descessem da árvore. Todos eles desceram rapidamente mas Andressa quis guardar algumas frutas para si antes de descer, então ela colocou algumas no bolso de trás de sua calça jeans e desceu da árvore. Eles correram por entre a fresta de volta para casa de Arthur onde entraram rapidamente tentando fugir dos olhos da Senhora Boaventura. Eles subiram as escadas e entraram rapidamente no quarto de Arthur que naquela época era decorado com o tema de Peter Pan.

– Quem estava lá? – perguntou Clarice ofegante.

– Aquela senhora, acho que ela não foi viajar com ele. – No instante em que Arthur disse essa frase a campainha tocou. Todos eles ficaram paralisados e foram na ponta dos pés até a ponta da escada. Eles se agacharam e se esticaram um por cima do outro para ver o quem era. Foi a senhora Helena que abriu a porta.

– Olá, como vai a senhora?- disse a mãe de Arthur sem falar nomes. O restante da conversa foi inaudível para as crianças, quem quer que fosse, estavam cochichando bem baixinho. Eles estavam concentrados tentando ouvir o que diziam até que Helena gritou:

– Crianças, desçam agora!

Eles arregalavam os olhos olhando um para o outro.

– Vai você na frente Arthur. – sussurrou Clarice empurrando o braço dele.

– Por que eu?! – sussurrou Arthur.

– Porque a mãe é sua! – disse Daniel também empurrando Arthur para que fosse na frente.

Com um suspiro pesado, Arthur se levantou revirando os olhos e bem devagar foi descendo as escadas. Logo atrás dele, seguiam seus amigos também a passos lentos e uma feição assustada. Arthur parou a alguns degraus do fim da escada fazendo com que seus amigos também parassem enfileirados um atrás do outro quando viu que a Senhora Boaventura estava junto de sua mãe na porta de casa.

– Cheguem mais perto, crianças. – disse Helena séria.

Todos voltaram a se mexer quando Arthur voltou a se aproximar e chegou bem ao lado de sua mãe. Eles fizeram uma fila ao lado de Arthur, preocupados com uma punição eminente. Todos estavam sujos de amoras, suas blusas e calças, mãos e bocas completamente vermelhas. Se mantiveram de cabeça baixa sem conseguir olhar nos olhos de Helena. Será que elas perceberiam as provas do crime?

– Vocês entraram escondidos na casa da Sra. Boaventura? – perguntou a mãe de Arthur.

– Não… – mentiu Arthur depois de um período completo de silêncio.

– Vocês comeram da amoreira da casa dela? – perguntou Helena.

– Não… – mentiu novamente Arthur tentando sair ileso da situação.

– Sei… E vocês estão todos sujos de amora por que?

– Porque comemos amora, ué. – respondeu Andressa com toda a inocência do mundo revirando os olhos.

– Andressa! – gritaram seus amigos arregalando os olhos para ela.

– Nós não comemos, mãe! – disse Arthur urgente se dirigindo a Helena para tentar corrigir a situação.

– Comemos sim! Olha aqui as amoras! – gritou Andressa para Arthur tirando as amoras amassadas do bolso de trás de sua calça jeans que estava completamente manchada e estendendo a mão para Helena ver as amoras.

– Olha só o que temos aqui… – disse a mãe de Arthur arregalando os olhos e pegando uma amora da mão de Andressa e mostrando-a para seu filho. – Por que mentiu Arthur? – perguntou Helena se agachando para ficar do tamanho dele e poder olha-lo nos olhos. Arthur estava com as mãos cruzadas na frente do corpo, com a cabeça abaixada e os olhos olhando fixamente seus pés sujos. Seus dedos dos pés e das mãos se apertavam uns nos outros por conta do nervosismo. Uma lágrima sutil de arrependimento escorria pelo rosto dele. Logo, seus amigos estavam tão envergonhados quanto Arthur pois sabiam que ele não havia sido o único a comer as amoras.

– Olhem pra mim, crianças. – disse a Sra. Boaventura com uma voz firme. Bem debagar eles levantaram suas cabeças para olhar a senhora. Ela usava um macacão jeans e um avental por cima, seus cabelos eram quase totalmente brancos, sua pele era flácida e seus olhos eram verdes. – Não quero que vocês subam novamente na minha amoreira, estamos entendidos?

As crianças epenas balançaram a cabeça assentindo. Estavam muito constrangidas para falar qualquer coisa e voltaram a olhar para o chão. Eles apenas podiam ouvir o suspiro da senhora Boaventura e ver que Helena se levantava novamente. Arthur não olhava, mas podia sentir os olhos de sua mãe penetrando sua alma.

– Contudo… – começava a dizer a Sra. Boaventura. – Eu nunca consigo alcançar as amoras que estão mais altas, apenas as que estão nos galhos mais baixos então eu não consigo colher muitas. Sabem, não tenho mais o corpo de 20 anos atrás e por conta disso nunca tenho amoras o suficiente para fazer uma torta.

As crianças olharam para a senhora e viram um pequeno sorriso iluminar seu rosto enrugado.

– Se vocês me ajudarem a colher as amoras para fazer uma torta eu esqueço o que aconteceu. Mas deverão me prometer que nunca mais entrarão sem permissão em nenhum lugar, principalmente no meu jardim. Prometem?

Todos balançaram a cabeça positivamente e logo seus rostos estavam cheios de alegria. Estavam aliviados pela senhora ter sido tão compreensiva

– Acho que podemos esquecer esse episódio, Helena. – disse a Sra. Boaventura lhe dirigindo um sorriso.

– Tudo bem, se não há mais queixas então eu também vou deixar passar. Mas que fiquem cientes de que vou contar o que aconteceu para os pais de todos vocês. Incluindo seu irmão, Clarice. – disse Helena se dirigindo a todos.

Clarice não queria que seu irmão soubesse que roubou as amoras mas tinha esperança de que o perdão da Sra. Boaventura amenizasse o seu castigo mais tarde. Embora todos tivessem ficado espantados com a declaração da mãe de Arthur sobre contar o ocorrido a todos os pais, não estavam abalados, tinham a mesma esperança de Clarice. Além disso, iriam comer mais amoras, e desta vez com autorização, não tinham motivos para ficarem tristes.

***

Finalmente podiam colher as amoras. A Sra. Boaventura encostou uma escada no tronco da árvore e deu um pote para cada um por dentro as amoras que colher. Enquanto isso, ela estava na cozinha preparando a massa para a torta. Finalmente todos os potes estavam cheios e quase não haviam amoras maduras para colher na árvore. Bom, todos menos o de Arthur que tinha mais amoras na boca do que no pote. Eles entraram na casa da Sra. Boaventura pela porta dos fundos do quintal e foram em direção a cozinha. Havia crochê em todos os cantos da casa, os tapetes da sala, nas escrivaninhas e mesa de centro, nas poltronas da sala, em todo canto havia crochê, de todas as cores, branco, azul, amarelo, rosa, vermelho… Além do crochê, a casa também era cheia de quadros com fotos em preto e branco e amareladas pelo tempo. Haviam fotos da infância, várias meninas enfileiradas na maior para a menor, uniformizadas com longas saias que iam até o tornozelo paradas na frente do que parecia ser uma escola. Havia uma foto bem miúda de um menininho vestindo uma roupa formal e um chapéu que parecia ser grande demais para a sua cabeça e na sua mão havia um estilingue de madeira apontado para uma árvore. As fotos se espalhavam por toda a casa, quadros de diferentes tamanhos, haviam fotos também do Sr. e Sra. Boaventura em suas viagens, as crianças que olhavam curiosas os quadros no caminho para a cozinha reconheceram alguns locais como a Torre Eiffel na França e a Fontana di Trevi na Itália. Eles continuaram seu caminho um atrás do outro até chegarem na cozinha. A Sra. Boaventura estava esticando a massa da torta na pia de mármore branco. A cozinha era bem ampla e aberta, vinha muita luz pela grande janela que tinha na frente da pia. Havia uma grande mesa de centro redonda de madeira clara e os armários, eram brancos  com portas de vidro. Dava para ver todos os utensílios de cozinha dentro dos armários, panelas, formas, tampas, copos, pratos, tudo estava muito bem organizado e enfileirado. Também havia um crochê na mesa redonda de jantar era branco com o bordado de rosas vermelhas. As crianças colocaram os potes de amoras em cima da pia.

– Muito bem, crianças. Agora, peguem as cadeiras e coloquem do lado do fogão. Vamos refogar as amoras no açúcar antes de as colocar na torta. – disse a Sra. Boaventura colocando suas mãos na cintura.

Todos eles foram correndo pegar as cadeiras e ficaram dois de cada lado do fogão em pé na cadeira para poderem ver o que a Sra. Boaventura estava fazendo. Ela pegou uma grande panela de alumínio e a colocou em cima do fogão.

– Arthur, pegue as amoras que estão em cima da pia para mim, por favor. – Arthur desceu a cadeira e pote por pote foi entregando as amoras para a Sra. Boaventura que ia colocando as amoras dentro da panela. – Andressa, pode pegar o açúcar na terceira porta do armário, por favor? – Andressa desceu da cadeira e pegou o açúcar. Ela precisou ficar na pontinha do pé para alcançar o açucareiro dentro do armário. Ao voltar com o açúcar, a Sra. Boaventura pegou uma colher e colocou o açúcar sob as amoras. Quatro colheres de açúcar e um pouco de água da pia foram o bastante para refogar e deixar as amoras bem doces para a torta. As crianças olhavam atentamente para a panela que borbulhava amoras bem cremosas e aos pedaços.

– Tome, Daniel. Mexa bem as amoras. Com cuidado para não se queimar e não deixa-las grudarem no fundo da panela. – disse a Sra. Boaventura estendendo a colher para Daniel. Ele abriu um largo sorriso e com todo o cuidado foi mexendo sem parar as amoras por mais alguns minutos. Ele revesava a vez com seus amigos. Daniel desde criança sempre foi muito doce. Só perdia para a torta.

Quando as amoras finalmente estavam refogadas, a Sra. Boaventura as deixou esfriando na geladeira e pediu para que as crianças se sentassem na grande mesa redonda.

– Agora nós vamos fazer a decoração da massa da torta. Aquelas tirinhas que ficam por cima da torta, sabem?  – perguntou a Senhora. – eles balançaram suas cabeças positivamente. – Muito bem. Vamos fazer tirinhas trançadas para cobrir a massa mas vocês podem usar o que sobrar para fazer bonequinhos que serão assados juntos com a torta. – A Sra. Boaventura pegou um pedaço de massa e começou a modela-la, primeiro ela fez duas bolas redondas de diferentes tamanhos e usou um garfo para fazer furinhos na massa. – Viram? – disse a senhora mostrando o pequeno porquinho que ela havia feito em alguns instantes.

– Que lindo! – disse Clarice entusiasmada para pegar logo um pouco de massa e começar a esculpir. A senhora deu um largo sorriso e empurrou um pouco de massa para cada um deles montarem seu bonequinho para ir ao forno. Clarice começou a moldar um cachorro, Daniel fazia uma flor, Andressa tentava fazer uma borboleta e Arthur fazia uma bola de futebol. A Sra. Boaventura fazia as tiras trançadas enquanto as crianças se entretinham com o restante da massa, era interessante para ela a capacidade que as crianças tinham de ver diversão e conseguirem se entreter com um pouco de comida.

Quando a Sra. Boaventura terminou de rechear e fazer as tranças na torta ela chamou a atenção das crianças que já haviam terminado seus bonecos e estavam brincando uns com os outros usando a massa de fantoche.

– Crianças, ponham em cima da torta os bonecos de vocês, vamos leva-los ao forno agora. Obrigada por me ajudarem e quando a torta estiver pronta, vou leva-la para a mãe do Arthur. Até lá, podem ir pra casa tomar um banho e ficarem limpos para a janta. – disse a senhora enquanto olhava para as roupas totalmente vermelhas de amoras que eles vestiam. Um por um foram colocando seus bonecos em cima da torta e olharam atenciosamente a Sra. Boaventura coloca-los no forno. – Pronto, daqui a alguns minutos nossa torta ficará pronta. – disse a senhora sorrindo para as crianças.

– Obrigado. – Agradeceu Arthur e logo em seguida todos agradeceram a gentileza. Estavam ainda mais felizes por não ficarem de castigo durante o dia, isso com certeza arruinaria a diversão do dia. Eles começaram a caminhar de volta para a casa de Arthur.

– Seu cachorrinho ficou lindo, Clarice. – disse Andressa.

– Ficou mesmo. – concordou Daniel.

– Obrigada! A flor e a borboleta de vocês também. – respondeu Clarice feliz por terem achado sua tentativa de representar o desejo de ter um cachorro bonita.

– E a minha bola? ninguém vai falar nada? – disse Arthur debochando.

– Você se esforçou. – disse Daniel para Arthur.

– Ficou melhor que a sua florzinha. – Arthur tentava provocar Daniel.

– Minha flor ficou ótima! Tá bom? – respondeu Daniel dando o troco em Arthur.

– Não liga pra ele, Dan. Ele só está com inveja. – disse Clarice pegando na mão de Daniel e empinando o nariz para Arthur.

– Eu? com inveja de uma florzinha? Até parece. – respondeu cruzando os braços. Ele estava ficando triste, queria que seus amigos também tivessem elogiado sua bola.

– Não se preocupe Arthur, eu também gostei da sua bola de futebol. – disse Andressa caminhando ao lado de Arthur.

– Gostou mesmo? – perguntou com a voz baixinha.

– Sim. Todos os nossos bonecos ficaram bons. – respondeu Andressa pondo em prática sua postura pacificadora de conflitos.

– É verdade, Arthur. Ficaram todos ótimos. – disse Daniel querendo consolar o amigo. Ele não queria ficar brigado com o seu parceiro de todos os jogos que praticavam na escola. Daniel e Clarice soltaram as mãos e pularam juntos para abraçar Arthur que estava visivelmente triste. Seus olhos estavam lacrimejando. Andressa se juntou ao abraço.

– Chorão. – disse Andressa para Arthur que começou a dar risada limpando o nariz na camiseta que vestia.

Quando chegaram na casa de Arthur, Helena estava colocando os pratos na mesa. Aliás, Clarice percebeu que mais pratos do que o normal. Quando chegaram na cozinha viram que os avós de Andressa, os pais do Daniel e o irmão de Clarice estavam também na cozinha conversando com Helena.

– Olhem eles aí. – disse o pai do Daniel estendendo os braços para o filho que foi correndo contar que estavam fazendo uma torta para a sobremesa do jantar.

– Então quer dizer que eu vou ter que limpar essa calça, Andressa? – perguntou a avó para Andressa e antes que ela pudesse responder, seu avô interferiu. – Deixa minha neta se sujar, mulher. Vem aqui, bonequinha. Me dê um abraço. – disse o avô de Andressa se agachando e estendendo os braços. Andressa Abriu um sorriso imediatamente e correu para os braços de seu avô. Sua avó também sorria, mas mostrou a língua para seu marido.

– Ainda bem que existe máquina de lavar. – debochou o irmão de Clarice olhando para as roupas de sua irmã. – Vem cá, está com o rosto todo sujo, deixa eu limpar. – Ele pegou sua irmã no colo e um papel toalha que molhou na água da pia para passar no rosto de Clarice. – Bem melhor – disse quando o rosto de sua irmã estava finalmente limpo. Deu um beijo em sua bochecha e a colocou de novo no chão. Clarice estava feliz que seu irmão não estava bravo com ela.

O resto da noite se seguiu com muitas risadas e histórias. Os maiores provedores de boas histórias eram os avós de Andressa, uma melhor que a outra. Eram tantas que Andressa nunca havia conseguido ouvir todas ainda. O Avô de Andressa se chamava Almor, um senhor alto de grande coração, desprendido de preocupações. Tinha o cabelo curto e branco enrolado em alguns cachos. Usava um óculos redondo e estava sempre com os 3 primeiros botões da camisa social abertos. Os pelinhos brancos do peito saltavam para fora da camisa. Ele possuía um brinco na orelha direita, havia colocado quando Andressa relutou em colocar furar a orelha pela primeira vez quando tinha 5 anos por achar que iria doer, então, para provar a ela que não iria doer, ele também furou a orelha e deixou que Andressa escolhesse o brinco que ele iria usar. Ela escolheu um brinco de ouro no formato de um avião que ele nunca havia tirado desde aquele dia.  A Avó de Andressa se chamava Aurora, se casou aos 19 anos com Almor e desde então estão sempre juntos. Ela nunca usava calças, sempre estava de vestido ou saias que iam até a altura do tornozelo. Ela e Almor eram muito joviais apesar de já estarem velhos, pareciam namorados do colegial, sempre se abraçando e mostrando a todos em volta o quanto se amavam e estavam felizes. Em várias ocasiões durante o jantar, ela jogava uma bolinha de guardanapo em Almor para tentar irritá-lo, ou então pegava a comida do prato dele. Eles eram o objetivo de qualquer casamento.

A mãe de Daniel se chamava Clara e o pai Maciel, quando era jovem, Maciel era surfista, vivia pelo sol e pelo mar até encontrar alguém com quem compartilhar a mesma areia. Amor que nasce no litoral não abandona a costa. Moldaram sua vida em torno do mar e da paixão pelo surfe, Daniel estava aprendendo a surfar todas as vezes que ia a praia com seus pais. Era sua diversão semanal.

O irmão de Clarice era um homem jovem, apenas 30 anos, seu nome era Wagner e já era responsável por sua irmã, cuidava dela como se fosse filha própria. Ele parecia os lenhadores que Clarice via nos desenhos da televisão, usava botas e camisas xadrez de botão. Tinha uma grande barba castanha, bem cheia e que causava inveja em todos que olhavam, ele era alto e forte e Clarice tinha a sensação de que as pessoas se assustavam com ele, ela não compreendia isso. Ele era tão sensível e delicado como uma flor que não via motivos para tanto amedrontamento diante dele. Talvez fosse o medo de ele estar carregando um machado, afinal, a camisa xadrez e a barba de lenhador ele já tinha. Mas ele não cortava árvores. Era advogado e possuía alguns imóveis naquela pequena cidade. Nada de cortar madeira.

Quando a campainha tocou no final do jantar, as crianças sabiam que a torta estava pronta. Helena foi abrir a porta para a Sra. Boaventura que entrou e perfumou com um aroma doce e delicioso de amoras a cozinha.

– Que cheiro maravilho! – disse Wagner – nem parece que foram essas pestinhas que fizeram – completou passando a mão na cabela de Clarice e rindo.

– É verdade, acho que fomos enganados – disse Almor piscando para o irmão de Clarice.

– Eles ajudaram muito, senhores e senhoras. Colheram e refogaram muito bem as amoras, além de terem feito lindos bonecos com o restante da massa. – disse a Sra. Boaventura pondo a torta na mesa e apontando para os bonequinhos assados que fizeram.

Acho que já podemos comer não é? – disse Helena colocando pratos de sobremesa e talheres na mesa.

Cada uma das crianças apontou para seus pais, irmão e avôs o que haviam feito com a massa, apresentando a borboleta, flor, bola e cachorro. Os bonecos estavam levemente deformados mas não perdiam o brilho de terem sido feitos com tanto carinho. Todos se serviram de torta, a Sra. Boaventura não ficou muito tempo, apenas entregou a torta e foi para sua casa fazer suas malas, seu marido iria busca-la para irem visitar a Holanda. Era de se esperar.
A torta foi muito elogiada, as crianças se sentiram muito orgulhosas de terem feito algo tão gostoso. Elas estavam com dó de comer os bonequinhos deles, queriam guardar de recordação pelo máximo de tempo possível. Eles brincavam na mesa com seus bonecos, fazendo a borboleta voar, a bola rolar de um lado para o outro e o cachorro fazer xixi na flor do Daniel.

– Acho que já está na hora de irmos, Clarice. – disse Wagner se espreguiçando na cadeira de jantar.  – Muito obrigado pela comida, Sra. Helena, estava ótima. E muito obrigado a vocês, pequenos, a torta estava muito boa. – completou com um sorriso olhando para os amigos de Clarice.

Clarice e seu irmão se despediram de todos e a Sra. Helena os acompanhou até a porta. Clarice estava quase entrando no carro quando ouviu Daniel chama-la.

– Clarice! – gritou Daniel correndo na direção dela, trombando sem querer na Sra. Helena e caindo no chão com a sua flor de massa levantada para que não encostasse na grama. Clarice foi correndo até ele para ver se estava tudo bem com seu amigo enquanto Helena já estava levantando ele do chão enquanto dava risada da cena.

– Você está bem? – perguntou Clarice preocupada.

– Estou, toma, é pra você. – disse Daniel estendendo o braço com a flor de massa para Clarice. Ela não sabia como reagir. Pegou a flor em um gesto tímido e sorriu para Daniel que estava envergonhado e olhava para baixo. Ela tirou um pedaço de grama que estava na bochecha dele e quando ele a olhou, deu um leve sorriso para seu amigo e voltou a caminhar para o carro de seu irmão.

– Deus, que fiquem só nas flores. – disse Wagner em voz baixa dentro do carro revirando os olhos enquanto dava a partida.

Esse era o pequeno universo deles naquela época. Os anos passaram e eles estavam na mesma calçada com seus mesmos amigos, na mesma época em que roubaram aquelas amoras da Sra. Boaventura ha 10 anos atrás, na casa ao lado, a mesma vizinha e a mesma árvore de amoras, apenas 10 anos de diferença e um lindo cachorro ao lado deles era o que diferenciavam os acontecimentos daquele dia de quando tinham 7 anos, para o dia de hoje.

– Clarice, posso confessar uma coisa? – disse Daniel quando seus amigos estavam deitados no gramado da calçada tomando sol e ao lado de Willy e a bicicleta de Arthur ainda estava jogada no gramado verde da casa dele.

– Diga. – disse Clarice de olhos fechados enquanto absorvia o sol na pele.

– Lembra quando éramos crianças e te dei uma flor de massa da torta que fizemos na casa da Sra. Boaventura? – perguntou Daniel.

– Lembro. – disse Clarice sorrindo com a recordação da lembrança.

– Só te dei porquê não gostei da massa. – disse Daniel serrando os lábios e dando um leve beliscão no braço de Clarice quando ela olhou incrédula em sua direção.

Arthur e Andressa olharam um para o outro confusos, sem entender do que estavam falando seus dois amigos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Conexões Humanas

Ontem por volta das 23:00 quando voltava da faculdade, encontrei o zelador do prédio que eu trabalho e ele me deu a notícia de que um senhor muito gentil que trabalhava no primeiro andar havia falecido a algumas horas. Aquele senhor sempre foi muito gentil comigo, cuidadoso e estava sempre de bom humor, tinha quase 90 anos e estava trabalhando no seu escritório todos os dias. Firme e forte com sua fiel bengala do lado. Algumas pessoas no prédio não gostavam dele. Xingavam ele de coisas horríveis apenas porque ele queria que tudo fosse sempre bem desempenhado, ele tinha os motivos dele pra pegar no pé de algumas pessoas mas isso não justificava o modo como falavam dele pelas costas. Volto a dizer, aquele senhor sempre foi gentil comigo, e até mesmo com pessoas que ele não conhecia. Lembro-me de estar indo ao banco quando o vejo ajudando um outro senhor totalmente desconhecido a atravessar a rua pois estava com um pé enfaixado. Sempre foi gentil.  Até que algo aconteceu e precisou ser internado. Depois de quase 3 semanas internado, fez uma cirurgia no estômago e não resistiu. Não sei o que ele tinha, nem a causa da morte. Sei apenas que o enterro será hoje as 15:00 horas.

Quando adormeci, eu que nem grávida estou, sonhei que estava em trabalho de parto. Meu sonho terminou antes que eu pudesse dar a luz, mas por algum motivo eu sabia que era um menino. Quando acordei e olhei o celular, vi que o filho de uma grande amiga minha nasceu durante a noite. Um menino lindo que com certeza vai receber todo o amor do mundo.

E é por esses dois motivos que eu estou escrevendo hoje. Eu acho incrível como a vida é cheia de conexões. Nós, seres humanos estamos conectados a um grau inexplicável de energia. Fazemos parte do mesmo ciclo de vida e isso nos conecta. Nós fazemos parte da natureza e cada dia que passa nos distanciamos disso. Eu não quero me distanciar. Eu quero que a natureza e tudo o que a engloba tenha sim uma forte influência em mim, pois dessa forma me sinto parte dela. Alguém morreu e outro nasceu na mesma noite e essa é a vida que levamos, entramos e saímos dessa terra e deixamos nossa pegada para ela ser coberta por outra pessoa quando fomos embora. É um ciclo necessário. Quando um fruto cai da árvore, toda a sua fruta se decompõe mas sua semente vai para o solo começar mais um novo ciclo de vida. Assim é com nós seres humanos.

Eu sinto que mesmo em sonho eu estava com a minha amiga. Que em algum grau de energia que não compreendo, eu sabia o que estava havendo e essa conexão foi manifestada. Fico muito feliz por isso. Faz com que eu me sinta integrada a vida em si.

 

Conhece os benefícios do abraço?

Portal do Budismo

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Através deste simples gesto – o abraço – conseguimos sentir a proximidade do outro e identificá-lo como um semelhante. No fundo, é reconhecer sem falar, que somos todos iguais e que estamos juntos no caminho, em sintonia e comunicação.

As crianças parecem sabê-lo melhor que ninguém: quando se magoam procuram de imediato o abraço reconfortante da mãe ou do pai que, de forma instantânea, parece curar o mais feio arranhão. Outra situação espontânea que faz surgir o abraço é quando alguém que nos é querido está em sofrimento.

Aliás está provado cientificamente que, mesmo quando não há ninguém por perto para nos abraçar ou para abraçarmos, podemos obter algum conforto abraçando uma almofada, um animal de estimação, um peluche ou mesmo uma árvore.

A tendência não é recente: a psicoterapeuta norte-americana, conhecida sobretudo pela sua abordagem de terapia familiar, Virginia Satir, já defendia em meados do século passado, que…

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TAO – A Sabedoria do Silêncio Interno — Portal do Budismo

Pense no que vai dizer antes de abrir a boca. Seja breve e preciso, já que cada vez que deixa sair uma palavra, deixa sair uma parte do seu Chi (energia). Assim, aprenderá a desenvolver a arte de falar sem perder energia. Nunca faça promessas que não possa cumprir. Não se queixe, nem utilize palavras […]

via TAO – A Sabedoria do Silêncio Interno — Portal do Budismo