O quanto o luto impede a escrita?

Perdi meu cachorro no dia 1 de fevereiro, fiz a eutanásia nele. O meu companheiro canino já tinha seus 15 anos, era cardiopata, tinha uma periodontite muito severa, não respirava direito sem a ajuda da sonda de oxigênio, estava com sintomas de desordem neurológica mas não foi possível fazer uma tomografia para confirmar, pois ele estava muito fraco, não queria comer, precisava de uma sonda para se alimentar, já não me reconhecia, vocalizava, precisava da morfina para as dores na coluna, tinha 3 nódulos bem grandes entre seus órgãos, o maior deles tinha cerca de 10 centímetros e se encontrava no baço. Uma cirurgia na atual condição de saúde dele era arriscada demais, talvez não resistisse sequer à anestesia geral. A eutanásia foi uma forma de acabar com o seu sofrimento, mas é difícil tomar uma decisão dessas, eles não podem se comunicar, dizer o que querem para si mesmos, então eles dependem de nós para tomar esta terrível decisão.

O Willy era meu cachorro desde que eu tinha 8 anos de idade, ele entrou para a família já adulto, com 3 anos. Cresceu comigo, foram 12 ótimos anos ao lado dele. Quando eu fiz 18 anos e me mudei de casa, ele veio morar comigo, só nós dois no centro de São Paulo, ele já era idoso, mas teve uma velhice feliz. Pelo menos, esse é o meu consolo. É o que repito à mim mesma todos os dias quando acordo pela manhã sem ouvir seu latido ou chego em casa e a encontro vazia.

O Willy tornou-se dependente de mim em sua velhice, se alimentava de comida caseira por ser melhor para a sua saúde, então ele precisava que eu cozinhasse para ele. Carne moída, beterraba, cenoura, banana, etc. Eu montava marmitas que deixava na geladeira, bastava eu esquentar ao longo da semana. Café da manhã, almoço e janta, eu estava sempre em casa por ele, era o principal motivo que me fazia ficar em casa. Nunca foi um fardo, naquela altura ele havia virado uma criancinha, sabe? um bebê que precisa ser alimentado.

Ele estava internado e a veterinária me informou de que o quadro clínico dele não evoluía, e durante as minhas visitas diárias ao hospital veterinário eu chorava mares de tristeza ao vê-lo com tantas sondas, sondas que o ajudavam a realizar atividades simples e vitais como respirar, comer e beber. Foi ao receber a notícia do seu quadro clínico e vê-lo naquela condição vegetativa que eu decidi -ciente de toda dor, tormento e solidão que me aguardavam- fazer a eutanásia.

É curioso, veja que a eutanásia não é por mim e sim por ele, porém sou eu que tomo a decisão de realizá-la. Não deveria ser assim, em um universo perfeito, um cão pensaria: “Chegou minha vez, é hora de partir”, e por assim partiria sem dor e sofrimento. Uma criatura tão bondosa como um cão não deveria chegar naquelas condições de saúde derivadas da velhice. Honestamente, se fosse um ser humano, eu sofreria muito menos. Seres humanos me desapontam constantemente, agora o Willy? Nunca, nenhuma vez, só a existência dele, por muitas vezes, já foi o único motivo para a minha felicidade diária. Maldito prazo de validade.

Há tantos hábitos que ainda carrego comigo. Todos os dias eu chego em casa e abro a porta devagar, pois ele ficava atrás dela me esperando e eu tinha medo de escancará-la e machucá-lo. Eu deixo a luz da sala acesa, pois ele gostava de ficar por lá, mas agora a sala está vazia e a luz continua acesa, eu ainda acordo no horário que eu o levava para passear, mas não preciso levantar mais da cama para isso, eu olho pelo box do banheiro durante o banho procurando pelo Willy que sempre me esperava sair do chuveiro no tapete. Não consigo andar pela casa sem suspirar de tristeza. A sala está fazendo eco sem a presença dele e de seus objetos. Nunca achei que haveria tanta tristeza e significado em um eco vazio. Minha melhor amiga, que sempre reclamou do meu apartamento ser tão minimalista e vazio, deveria vê-lo agora. Na sala há apenas um sofá, uma televisão que não está ligada na tomada (pois para mim televisão é perda de tempo) e quatro quadros  com fotos minhas e do meu namorado em cima de duas prateleiras, só, nada mais. Não tenho coragem de colocar uma foto do Willy em uma moldura, dói demais lembrar da sua ausência.

Durante o período que envolveu a internação do Willy e sua eutanásia eu entrei em um luto extremamente amargo, ainda estou em luto. Eu não queria escrever nada, aliás, ainda não quero, escrevo por obrigação, escrevo pois coloquei na minha lista de tarefas: “escrever para o blog”, escrevo pois não gosto de conversar pessoalmente com a humanidade, porque  diálogos me dão preguiça, me fazem revirar os olhos, mas principalmente, escrevo para tentar superar, sair desse luto, verbalizar o sofrimento e a solidão e tentar eternizar meu cão (que nunca foi apenas um cão, mas um filho) em algumas palavras.

– Rejane Leopoldino

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Willy, dia de chuva e vento frio.

06:30
O despertador toca mas não tenho forças para levantar. Volto a cochilar.

06:35
Ouço o choro baixinho do Willy tirando meu sono e abro os olhos. Me inclino e olho pra porta do quarto onde vejo meu cachorro olhando para mim.

– Está na hora de acordar, você tem responsabilidades. Me levar para passear é uma delas. – disse o Willy ainda parado na porta.

– Vem cá. – chamei estendendo minha mão para fora da cama. Willy andou devagar até mim e eu o peguei no colo o colocando deitado debaixo das minhas cobertas e o abracei. – Vamos descansar aqui um pouco mais… Olha como está quentinho… – eu disse fechando meus olhos quase voltando a dormir.

– Está bem confortável, mas e suas responsabilidades?  – disse o Willy repousando sua cabecinha no meu ombro e se ajeitando para descansar comigo.

Eu abro meus olhos e olho pela janela. Está nublado, frio e garoando com um gostinho de solidão. O vento bate nas janelas do meu quarto fazendo o ar entrar com um forte assobio. Suspiro. Eu não conseguiria levar o Willy para passear nessa chuva. Olho para ele repousando no meu ombro, confortável, quentinho e cheio de amor.

– Elas não são tão quentinhas. – fecho meus olhos novamente abraçando meu cachorro e me afundando mais debaixo das cobertas. Willy fecha seus olhos e solta um bocejo me fazendo companhia durante minha tarefa matinal de procrastinar minhas responsabilidades.

– Rejane Leopoldino

 

Willy, meu cachorro e o almoço.

Chego em casa apressada no horário de almoço pois preciso me encontrar com um rapaz que irá me apresentar o imóvel dele no mesmo prédio que o meu em 10 minutos. Abro a porta e dou de cara com o Willy que me olha em sua cama e nota a minha pressa.

-Por que está andando rápido dentro de casa? – pergunta o Willy me seguindo até a cozinha onde começo a esquentar um lámen para comer.

– Porque preciso me encontrar com uma pessoa na recepção em 10 minutos. – respondo deixando o lámen de lado e preparando o almoço do Willy que se consiste em um sachê de cachorros pois ele está muito velho e já não consegue mastigar direito.

– Mas você vai conseguir cozinhar e comer em 10 minutos?

– Não. Mas consigo colocar para cozinhar e te dar sua comida – respondi dando um sorriso enquanto amassava as carnes cozidas do sachê com um garfo para que ele conseguisse comer melhor e misturo os remédios e vitaminas que ele precisa tomar todos os dias junto com o almoço.

Me sento no chão próximo a cama do Willy carregando em um prato o sachê de carne. Ele vem até mim e começa a cheirar o prato. Pego um punhado com os dedos e estendo na direção do meu cachorro que começa a lamber meus dedos. Preciso dar a comida para ele na mão pois só assim ele come tudo. Me perco em pensamentos enquanto aguardo ele terminar de comer quando ele diz:

– E o lámen? – pergunta se sentando na minha frente e me vendo levantar rápido indo em direção à cozinha deixando seu prato no chão.

– Me esqueci. Obrigada. – Ele estava quase queimando na panela.

– De nada. Você vai comer agora? – pergunta e começa a lamber o que sobrou do molho que tem no prato.

– Não, vou deixar esfriando enquanto vou no apartamento. Ele já deve estar na recepção. Até mais! – agacho para dar um beijo na sua cabeça.

– Até.

Volto para casa cerca de 10 minutos depois de ter saído, foi uma visita rápida apenas para olhar o apartamento.

– Foi rápido. – comenta o Willy enquanto me vê pegando seu prato que estava no chão e depositando na pia. Ele se deita no chão da cozinha e começa a me ver comer o lámen. – Você devia se alimentar melhor, você sempre me dá vitaminas e cuida da minha alimentação mas esquece da sua. Ei, coma mais devagar!

– É… ás vezes eu me descuido. Acho que é a juventude, quando você era filhote também comia rápido, além de subir na mesa e roubar comida que você não podia comer. – Rebato com uma risada

– É… talvez seja a juventude. Mas o tempo passa. – Diz se levantando e indo tirar um cochilo na sua cama. Eu termino meu almoço e vou arrumar minhas coisas para voltar ao trabalho. Quando estou saindo vejo um Willy descansando, a velhice o faz dormir muito mais do que antigamente.

– Não te levei para passear hoje, prometo chegar mais cedo da faculdade para te levar. – Me agacho fazendo carinho na sua cabeça que repousa tranquilamente na coberta.

– Tá bom, vou dormir até lá. – comenta soltando um bocejo.

– Já estou indo, tchau, eu te amo! – digo me levantando e pegando a minha bolsa.

– Até mais, eu sei que ama.

Tranco a porta e deixo um Willy de barriga cheia e com sono descansar pela tarde toda.

-Rejane Leopoldino

 

 

 

 

 

Conheçam o Willy.

 

Willy 6

Willy, a inspiração para meu livro ” Lighthouse”

Esse é o meu bebê, Um Yorkshire Terrier, o melhor presente que eu poderia ganhar na vida. Ele veio para mim com 4 anos de idade, eu tinha 8 anos naquela época e desde então nos tornamos inseparáveis. Muitas histórias se desenvolveram e 11 anos depois ele ainda está ao meu lado, meu velhinho, meu presente mais querido. Hoje ele tem 15 anos, já passou da fase de roer os móveis, destruir chinelos, brincar com a bolinha, correr como antes, latir como doido… Mas ainda é meu filho. Hoje ele gosta de fazer o xixi dele na rua, sair pra passear bem devagar, comer um sachê e principalmente dormir, como gosta de dormir. Ele é a personificação canina de um aposentado.

Ao longo dos dias e dos próximos capítulos do meu livro, vou introduzindo mais informações sobre meu amado filhote de 15 anos.